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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um imenso adeus


«Do mundo, nós dizemos que as leis da gravidade universal são as enunciadas por Newton, ou que é verdade que Napoleão morreu em Santa Helena a 5 de maio de 1821. E todavia, se tivermos um espírito aberto, estaremos sempre dispostos a rever as nossas convicções, no dia em que a ciência enunciar uma reformulação diferente das grandes leis cósmicas, ou um historiador descobrir documentos inéditos que provem que Napoleão morreu num navio bonapartista quando tentava a fuga. Em contrapartida, em relação ao mundo dos livros, proposições como Sherlock Holmes era solteiro, a Capuchinho Vermelho foi devorada pelo lobo mas depois libertou-a o caçador, Anna Karénina mata-se, permanecerão eternamente verdadeiras e nunca poderão ser refutadas por ninguém. Há pessoas que negam que Jesus fosse filho de Deus, outras que inclusivamente põem em causa a sua existência histórica, outras que afirmam que é o Caminho, a Verdade e a Vida, outras ainda que consideram que o Messias ainda está para vir e nós, seja como for que pensemos, tratamos com respeito estas opiniões. Mas ninguém tratará com respeito quem afirmar que Hamlet se casou com Ofélia ou que o Super-Homem não é Clark Kent.» 
Sobre a Literatura, Umberto Eco.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ninguém escreve como tu

Andei a vasculhar pens antigas e deparei com alguns textos meus que escrevi para jornais e revistas. Recuperei este, que deve ter sido escrito há uns 16 ou 17 anos, era a minha filha muito pequena. Tudo a propósito de uma extraordinária entrevista que António Lobo Antunes deu à Pública (revista do jornal Público), se não me engano, e que tinha como título Ninguém Escreve Como Eu. Deixo-o aqui, para "memória futura".

...

Ninguém escreve como tu. Ninguém. E não era preciso dizê-lo. A verdade, por muito que custe a muitos, é que ninguém escreve como tu. Nem mesmo tentando, como agora, na febre da escrita às três da manhã, onde o silêncio é tanto que paro e escuto a memória já um pouco adormecida de uma voz que diz
- «Você é um anarquista, um marginal, você pactua com o leste, você aprova a entrega do Ultramar aos pretos»
e olho para o teto para aliviar os olhos no branco da tinta do teto sem as linhas do papel por cima do branco imaculado das folhas, e de súbito a voz da minha filha que me chama
- «você aprova a entrega do Ultramar aos pretos»
do fundo do seu quarto e sei que deve estar de joelhos por cima do edredon da Disney com os braços abertos para o colo que só os pais sabem dar
- papá, papá
largo a caneta e o caderno, tiro os olhos do branco do tecto e reparo numa ponta de humidade ( porque o inverno vai longo e húmido, pouco chuvoso é certo, mas que está a ser húmido, está )
- papá, papá
e os chinelos que não estão no sítio para os calçar e a voz de novo a trovejar
- «você é um anarquista, um marginal»
os braços da minha filha esticados para o conforto dos meus, e ao contornar a cama tropeço nos chinelos fora do sítio habitual e digo
- já vou pipoquinha, já vou
sempre com a ideia da voz distante que a razão não apagou ainda, procuro a luz do quarto para não tropeçar em mais nada, para não assustar a minha filha já de si assustada por sonhos que todas as crianças teimam em ter a meio da noite, a meio dos sonhos dos adultos, tomo-a nos braços e faço o percurso inverso até ao ponto de partida, esquivando-me das armadilhas dos chinelos e das vozes
- «você aprova a entrega do Ultramar aos pretos»
quando são já quase quatro horas da manhã e a vontade inicial destas linhas era apenas dizer que ninguém escreve como tu, António, por muito que custe a muitos, ninguém escreve como tu.
(Os excertos entre aspas foram retirados da sua primeira obra publicada, Memórias de Elefante. )

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz 2013!

Estou descrente, e 2013 está a chegar. Lembro os versos de Cazuza, e sorrio da ironia que neles encontro,  temendo-os pela verdade que neles se encerra. Que mais se pode fazer senão acreditar no impossível? Que seja um ano feliz, mesmo assim! E que a felicidade nos pareça um bem maior do que alguma vez imaginámos, uma coisa rotineira como saúde, água e pão à mesa. 



Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára.

*os versos de Cazuza pertencem à canção O Tempo Não Pára

terça-feira, 5 de junho de 2012

The book people

[...] - You follow the river upstream 'til you come to the old steam railway line. Then you go on and you go on until you get to where the book people live.             
- The good people? 
- No, book. The book people. You've not heard of them? 
- No. 
- People who vanished. Some were arrested and managed to escape. Others were released. Some didn't wait to be arrested. They just hid themselves away. Up in the farm country; the woods and the hills. They live there in little groups. The law can't touch them. They live quite peaceably and do nothing that's forbidden. Though, if they came into the city, they might not last long. 
- But how can you call them book people... If they don't do anything against the law? 
- They are books. Each one, men and women. Everyone, commits a book they've chosen to memory, and they become the books. Of course, every now and then, someone gets stopped, arrested. Which is why they live so cautiously. Because the secret they carry is the most precious secret in the world. With them, all human knowledge would pass away. [...] 

 Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Meu Coração

Meu coração bate sem saber
Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender!!!

* primeiros dois versos da canção Meu Coração, de Arnaldo Antunes.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Seja marginal, seja herói


A célebre tela de Hélio Oiticica ainda hoje transmite uma válida opinião. Para mim ela estará sempre relacionada com o movimento tropicalista, mas a história diz-nos que ela foi pintada em homenagem a Cara de Cavalo, conhecido meliante morto pela polícia brasileira em 1965, ano em que a tela foi pintada. Durante muito tempo, (ó ignorância!!!) julgava que a imagem deitada na pintura de Oiticica era a do meu idolatrado Caetano Veloso, isto porque ela aparecia no encarte do disco Barra 69 - Caetano e Gil ao Vivo na Bahia, no Teatro Castro Alves, e também pelo facto de ser relativamente comum ver-se, nos concertos, Caetano Veloso deitado no palco durante alguns momentos do espetáculo, postura que ainda vai repetindo, aliás. Mas voltemos ao início deste texto, lembrando o conceito expresso no texto da famosa tela. A ideia heróica atribuída à marginalidade, entendida claramente por mim como distante da ideia que presidiu à sua aparição, parece-me cada vez mais válida nos dias que correm, embora cada vez menos representativa dos indivíduos deste tempo. Eu sou, ou tento ser, marginal. Marginal por não me rever em muito (em quase tudo, aliás) daquilo que nos chega de forma massificada aos olhos, aos ouvidos, através da imprensa escrita, falada, televisionada, através dos filmes que passam nas salas de cinema, dos espetáculos de música, e por aí fora... E sou, da maneira mais humilde que consigo, herói. Porque resisto, porque não vejo, não leio, não ouço aquilo que me impingem a torto e a direito, querendo sempre ser eu, para o bem ou para o mal, a escolher o que mais me apraz. Por isso dou razão a Oiticica, embora subvertendo o sentido da sua tela-bandeira que há tantos anos conheço.


sábado, 21 de novembro de 2009

Obrigado, Artur!

A propósito de uma amizade e de um grande filme, leiam o que escreveu o meu amigo Artur. É só carregar aqui.

terça-feira, 17 de março de 2009

Outras Palavras

"Parafins gatins alphaluz sexonhei la guerrapaz
Ouraxé palávoras driz okê cris espacial
Projeitinho imanso ciumortevida vivavid
Lambetelho frúturo orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras"

* é disto que sinto falta: de outras palavras que nos digam mais do que certas palavras.
** excerto final do poema cantado em Outras Palavras, de Caetano Veloso.
*** este post inicia uma nova etiqueta neste blog.