O Senhor Stein desapareceu. Nunca mais se ouviu falar dele, e nunca mais foi visto em parte alguma. Dizem que andava triste, cabisbaixo, dizem até que andava insatisfeito com a vida. Agora estranha-se a ausência, e questiona-se o paradeiro desse homem que, na verdade, também pouco se via, e só de quando em vez aparecia. Por onde andará, e o que pensará ele dos tempos que correm, também eles tristes e cabisbaixos? Terá sumido com o tempo, reencontrando-se nele e no vazio que persiste à nossa volta? Daí que vos deixo um pedido: se o virem, não importa onde e em que condições, digam-lhe que espero por ele algum dia, numa qualquer esquina das nossas incontáveis ilusões.
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
domingo, 12 de maio de 2013
Tempo indefinido
O Senhor Stein anda cansado, sem grande força para escrever o que lhe vai na alma. Roubaram-na! É nisso que pensa, e vai meneando a cabeça em confirmação. Anda só, e surpreso com a solidão do mundo. Encontra injustiças em todo o lado, pensando nelas quando chega a casa e se descalça, sentado na cama onde tem dormido mal nos últimos meses. Antes, nesse tempo indefinido em que ninguém se importava de viver, o Senhor Stein era diferente. Acordava para o dia como se fosse dia pela primeira vez. Mas amanhã, quando acordar, pensará em tudo isto e esboçará um tímido sorriso. E nada mais o convence, que é apenas isso que é preciso.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Para lá e para cá
O Senhor Stein acaba de rasgar do calendário a página de janeiro. Já passou. Faltam mais onze meses para ser janeiro, e para que, passados mais trinta e um dias desse instante, possa repetir o gesto de há pouco, uma vez mais. Fevereiro ainda não chegou, mas está por horas. O Senhor Stein olha o relógio de pulso, e sorri. Sabe a mentira dessa verdade. É assim que o Senhor Stein se sente bem. Controla o tempo e percorre-o, distanciando-se do presente. Viaja nele, para lá e para cá, voltando sempre ao ponto de partida. Ou de chegada, ou de percurso, já nem sabe bem. Na verdade, o tempo não habita no seu pulso, e o Senhor Stein sabe-o bem.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Um fim em continuidade
O Senhor Stein, afinal, escapou ao fim do mundo. Escapou ileso, sem uma única dor, sem um único sentimento de angústia, ou de medo. Na verdade, o Senhor Stein não acredita em profecias, tenham elas a origem que tiverem. Acredita, isso sim, que a vida continua, alheia às vontades de todos e de qualquer um. Acredita, isso sem dúvida, num fim em continuidade. Como os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses e os anos, e por isso o Senhor Stein está em casa, a preparar-se para o fim de 2012. Tem a mesa posta, e vestiu uma roupa a condizer com a data. Olha em frente, e quando um novo ano começa, o ano antigo já não lhe faz falta.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
O Pai Natal
O Senhor Stein já pouco liga ao Natal. Pouco lhe diz a quadra que agora se vive, embora não perceba bem as razões que o levam a andar desanimado com esse velhinho de barba branca e olhar generoso. O próprio Pai Natal parece-lhe um Pai Natal reformado da sua missão, ausente, cabisbaixo. Na verdade, o Senhor Stein preferiria viver o Natal de outras alturas, mas sabe perfeitamente que essa possibilidade só existe na sua cabeça, daí que tenha encomendado (num sítio que não diz a ninguém) um pouco do tempo em que o Natal era o acontecimento da sua vida. Pediu que lho entregassem embrulhado, com um enorme laçarote. No entanto, o Senhor Stein sabe que a encomenda poderá atrasar-se, uma vez que o Pai Natal já está muito velhote.
domingo, 25 de novembro de 2012
Talvez
O Senhor Stein não consegue dormir, apesar de estar na cama há mais de duas horas. Queria adormecer profundamente no sonho da noite anterior. Queria voltar ao pátio da escola, à sala onde aprendera os encantos das letras, recordar-se das primeiras amizades. É difícil adormecer quando se deseja viver o que há muito tempo aconteceu. Talvez o melhor seja não lembrar, pensa o Senhor Stein. Talvez o melhor seja não viver os dias antigos, e ter apenas como amigos os dias de agora. Talvez o melhor seja perceber que viver de sonhos é não entender que o tempo só quer que neles nos fixemos para nos deitar fora.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Memories, how they fade so fast
O Senhor Stein foi à sua habitual ervanária e comprou Aloe Vera em comprimidos. Comprou, igualmente, um complexo de vitaminas B. Como já tinha pouco em casa, achou melhor reforçar a dose de magnésio, uma vez que nem sempre lhe apetece comer bananas. Sabia que tinha mais um ou outro produto para comprar, mas deixou em casa o papelinho onde havia apontado tudo o que precisava. Como a memória não anda lá grande coisa, esqueceu-se de comprar ginkgo biloba, e passado quase um mês ainda não se lembrou de voltar à ervanária, uma vez que também se esqueceu onde deixou o papel que tanta falta lhe faz, embora nem se lembre disso.
* o título deste post é um verso (e uma homenagem minha) da canção I Am a Camera, dos The Buggles.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Sonhos eternos de inverno
O Senhor Stein encontra-se, neste momento, a espreitar a rua, na janela da sua sala. Chove lá fora, faz frio, a cor enegrecida das nuvens parece ser eternamente duradoura. Ouve-se, dentro de casa, e em baixo volume, o final da Sinfonia nº1 de Tchaikovski, Sonhos Diurnos de Inverno. Se houvesse alguém na rua a observar a cena descrita, tenderia a perceber, seguramente, uma certa tristeza indefinida naquela personagem, e em todo o ambiente que a envolve. E se, para além disso, conseguisse ouvir o que ouve o Senhor Stein enquanto olha para a rua, não teria dúvidas sobre os pesadelos da solidão humana.
sábado, 6 de outubro de 2012
Viajar ou viajar
O Senhor Stein pensou em ir passear pela Europa, o seu destino preferido. Gostava de fazer projetos de viagens, pois assim viajava sempre um pouco, mesmo sem viajar. Aliás, já tinha ido a alguns sítios, e viajado por muitos mais. Se se pusesse a pensar em todos os destinos visitados, facilmente chegaria à conclusão de ser um Homem do Mundo! Ou, pensando melhor, um Homem da Europa... Ibérico, sem dúvida. Ou, para ser ainda mais exato, um Homem muitíssimo Português.
sábado, 15 de setembro de 2012
Rentrée
O Senhor Stein regressou de férias, mas a precisar delas, ao mesmo tempo. A ideia é simples, e conta-se em poucas palavras: as férias, à sua maneira, deixam o Senhor Stein exausto. É o calor excessivo, a dolência que a praia dá, as noites quentes e suadas que pouco descanso trazem ao corpo... Por tudo isto não é de estranhar que a rentrée se faça com alguma fadiga acumulada. Para o ano será de novo assim, bem o sabemos. Mas há que ser forte como o aço, pensa o Senhor Stein, que agora é tempo de trabalho, para descansar do cansaço.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Um fiozinho de óleo
O Senhor Stein ouviu, numa mesma tarde e por 6 vezes seguidas, o disco Die Mensch-Maschine, dos Kraftwerk. Enquanto ouviu o disco em repeat, permaneceu sentado, imóvel, estático, totalmente absorvido pelo prazer que saía das suas potentes colunas de som. Que encantamento! Que horas fantásticas aquelas, que pareciam elevá-lo a uma outra condição existencial! Quando resolveu levantar-se, passados aproximadamente 218 minutos, sentiu-se preso de movimentos, tal o tempo em que permaneceu sem se mexer. Daí que, nesse mesmo instante, a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi pôr um fiozinho de óleo nas suas articulações.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Para combater o tédio
O Senhor Stein está a precisar de férias. Todos os que o conhecem, que na verdade não são muitos, não compreendem muito bem a razão do seu cansaço. Perguntar-se-ão alguns, certamente, o que poderá estar na origem do ar pouco simpático dos últimos tempos, o que foi feito da sua anterior bonomia, da palavra certeira e bem disposta que sempre dispunha. Não o percebem! Não o entendem nos tempos que correm! Há dias, em resposta a uma pergunta sobre a sua mudança interior, respondeu assim: "o que há em mim é sobretudo cansaço". Mas, ao invés de emborcar um copo de vinho após a resposta dada, bebeu um refrescante gole de Sumol de limão, desejoso que estava de experimentar esse novo sabor refrigerante.
sábado, 2 de junho de 2012
Livros intactos
O Senhor Stein percorreu inúmeros alfarrabistas à procura de um exemplar de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Em nenhuma das buscas que fez teve o sucesso pretendido. Desanimado, voltou para casa descrente da sua sorte. Mais tarde, já passava da uma da manhã, deitou-se e adormeceu rapidamente. Sonhou com livros queimados, com vozes autoritárias que o deixaram sobressaltado, com pessoas de olhar terno que diziam palavras bonitas, escondendo-se logo a seguir. Quando acordou, levantou-se e olhou para a sua mesa de cabeceira. Todos os livros que lá se encontravam faziam crer que os sonhos, por vezes, nada mais são do que realidades distantes. Por isso, espreguiçou-se e sorriu.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Ia jurar que chorou
O Senhor Stein lembrou-se de pôr a tocar a banda sonora de Amor de Perdição, de Bernardo Sassetti. No meio de milhares de cds, quase desesperou. Não conseguia encontrar o desejado objeto. Procurou-o furiosamente nas várias prateleiras onde tem, sem grande ordem, essas tão importantes rodelas de música. Não o encontrava, até que se lembrou de espreitar por detrás das prateleiras dos armários. Ali estava, caído, com a embalagem visivelmente danificada. Depois, lembrando-se das trágicas notícias recentes, encontrou uma espécie de consolo em tudo aquilo. Colocou o disco a tocar, e embora não tenha a certeza, ia jurar que chorou.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Íntima ideia
O Senhor Stein tremeu de excitação. Um tremor ligeiro, mas suficiente para não permanecer incontido. Tinha, à sua frente, algumas das mulheres da sua vida. Muitas, sobretudo Monica Vitti, essa deusa a preto-e-branco, mas também a cores, mais tarde. Lembrou-se do tempo em que acreditava em Deus por causa dela. Teria havido mulher mais bela na história do cinema? Não, claro que não, respondeu para si mesmo, sorrindo. Pegou em meia dúzia de filmes e seguiu até à caixa para os pagar. Na sua cabeça luzia uma única ideia, a mesma referida no início destas linhas, íntima o suficiente para nada dizermos sobre ela, e para este post terminar aqui.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Serviço (pouco) público
O Senhor Stein comemorou ontem o primeiro Dia Internacional do Jazz! Que satisfação foi saber que a UNESCO se lembrou desse estilo musical! Para o Senhor Stein, não restam dúvidas: Jazz é sinal de liberdade, de entendimento entre as raças, de inteligência musical. Soube da data a caminho do lar, depois de mais um dia de trabalho. Chegou mesmo a comprar, rejubilante, o cd Mingus Dynasty, de Charles Mingus. Ouviu-o, plenamente satisfeito, logo ao chegar a casa. Pensou, entretanto, no serão maravilhoso que teria, ao cair da noite, se ligasse a tv e fosse brindado com um especial sobre o assunto. Assim que pôde, logo após o jantar, ligou a televisão. A coisa mais próxima daquilo que pretendia ver foi, talvez, um filme mudo que passava no canal 2.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Lágrimas
O Senhor Stein não conseguiu conter um pequeno deslizamento de lágrimas. A força da natureza não se controla, e é quase sempre inoportuna e inesperada. Para além destas óbvias verdades, o Senhor Stein facilmente se deixa abater por coisas simples e belas. Ouvir Seymor Stein foi apenas uma delas.
* Seymor Stein é uma belíssima canção dos Belle and Sebastian
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
O quadro
O Senhor Stein constipou-se, e muito. Constipou-se ao ponto de ter febres altas, dores de corpo, tosse quase fantasmagórica, um horror... À boa maneira exagerada e piegas dos homens, sentiu-se perante a ideia do fim da sua vida. A piorar o seu estado, iria morrer, certamente! Nunca se tinha sentido tão mal. Nunca. Deitado, sofredor das agruras virais e bacteriológicas do momento, o Senhor Stein olhou para o quadro - uma natureza morta, de Jan Brueghel - , pendurado na parede à sua frente. E nunca, como nesse momento, se sentiu tão próximo de uma obra de arte.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
As quatro estações
O Senhor Stein percebeu a chegada do inverno, quando viu partir os pássaros da sua rua. Começaram a partir rumo a um destino melhor, era outono ainda. Se tivesse asas, o Senhor Stein faria o mesmo. Mas não tem, e resolve o seu problema com mais uma ou outra peça de roupa e algumas chávenas bem quentes de tisanas. O Senhor Stein não gosta do frio dos dias que correm, mas gosta das pequenas doses de verão com que se conforta. Para hoje, lá mais para o fim da tarde, o Senhor Stein tem em mente fazer uma infusão de jasmins e orquídeas para degustar, antecipadamente, o sabor da primavera.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Dieta literária
O Senhor Stein sempre gostou de ler poesia. Lê, muitas vezes, para se sentir melhor, mais humano. Tudo começou há muito tempo atrás, quando deu consigo a pagar meia dúzia de escudos por uma antologia de Fernando Pessoa. Houve, desde essa data, um verso que o marcou mais do que qualquer outro. É de Campos, e diz assim: "Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates." E assim, por causa desse único verso, o Senhor Stein ainda hoje recusa qualquer dieta baixa em calorias poéticas.
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