Hoje dói-me o corpo todo
como se fosse mulher
em hora de parto
dói-me o olhar cego por ti
o braço de te embalar
nos sonhos dos dias
e arde-me o sangue
o sangue perdido
nas horas do fim
o sangue que corre em desatino
o desespero do choro
do corpo que chora
sem se entregar ao destino
Hoje dói-me o corpo todo
para me lembrar que existo
segunda-feira, 3 de março de 2008
domingo, 2 de março de 2008
J. C.
Recordações
Pareciam setas cravadas no peito. Cada olhar anunciava uma nova ferida por abrir. Talvez por isso o sol de verão trazia consigo um prenúncio tímido de um qualquer tempo mais frio, mais cinzento. As recordações fazem de nós o que querem! Magoam-nos, acariciam-nos, brincam connosco. Naquele dia foi assim, mais uma vez. Deitado no tapete de relva rente à tua pele, via o céu azul ao longe... Mas também havia céu na cor dos teus olhos que olhavam para mim.
* esta imagem foi tirada do site http://disparosporai.blogspot.com/
Poema
Escrevo os versos
que a história não conta
os versos que ninguém lê
aquilo que não existe
escrevo por detrás das coisas
na sombra dos gestos
no soluço das palavras
no silenciar dos dias
escrevo no tempo que não tenho
e até ao fim da vida...
O que escrevo é um lenço branco
que acena à minha partida
que a história não conta
os versos que ninguém lê
aquilo que não existe
escrevo por detrás das coisas
na sombra dos gestos
no soluço das palavras
no silenciar dos dias
escrevo no tempo que não tenho
e até ao fim da vida...
O que escrevo é um lenço branco
que acena à minha partida
sábado, 1 de março de 2008
Março
Março abriu as janelas
para que o víssemos
na força da sua essência
Que vozes trazes contigo, amigo
em toda a tua inocência?
para que o víssemos
na força da sua essência
Que vozes trazes contigo, amigo
em toda a tua inocência?
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Íntima luz

E quando chegou a noite, chegou o frio. Talvez por isso lhe tenha apetecido vestir um casaco de lã. Encostou-se à janela do quarto e viu o mundo parado lá fora. Estático, pedaço de fotografia enquadrada no vidro por onde espreitava. Lembrou-se, aos poucos, do que lhe haviam dito minutos antes. E, para melhor se capacitar disso, recordou essa ideia numa voz que condizia com o cair da noite: a escuridão tem sempre de ser exterior a nós!
*esta imagem foi retirada do site http://bocadosdetudo.blogspot.com/
Poema
O que nasceu da ausência
fez-se flor
e fez-se forte
insinuosa e pronta
para o desfrute
das pétalas
para os encantos
do cheiro
e dos aromas do amor
fez-se flor
e fez-se forte
insinuosa e pronta
para o desfrute
das pétalas
para os encantos
do cheiro
e dos aromas do amor
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Poema
Mexo no papel
aliso a folha como se beija
a face daqueles que amamos
Cheiro o sabor que tem
e inscrevo nele a minha voz
impura e lívida
O amor tem momentos assim
momentos maiores que a vida
aliso a folha como se beija
a face daqueles que amamos
Cheiro o sabor que tem
e inscrevo nele a minha voz
impura e lívida
O amor tem momentos assim
momentos maiores que a vida
And Now for Something Completely Different...

Porque os meus dias têm sido vividos em horas de alguma melancolia, talvez por isso o disco de Ai Aso me arrepia em todos os seus acordes. Pouco mais de trinta minutos a ouvi-lo e o dia tem outro brilho, outra luz, tímida e frágil, incenso nos ares e nos ouvidos. Como alguém que se preocupa comigo, que se acerca de mim e me diz, num quase manto de silêncio:
- estas canções são a tua salvação!
* Ai Aso é japonesa, canta em japonês e gravou o disco Chamomile Pool. Com um título assim só me resta adormecer e agradecer-lhe a existência nos sonhos que ele me provoca.
Poema do dia que não houve
Era hoje o dia
tão esperado
o dia do desejo
acumulado
que amanheceu
sem luz
frio e carente
Era hoje o dia
em que frente a frente
a vontade do passado
se tornaria presente
num duplo corpo
entrelaçado
tão esperado
o dia do desejo
acumulado
que amanheceu
sem luz
frio e carente
Era hoje o dia
em que frente a frente
a vontade do passado
se tornaria presente
num duplo corpo
entrelaçado
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Écoutez le cinéma!

Ontem, ao final da tarde, chegou-me às mãos o cd com as bandas sonoras dos filmes e Pierrot Le Fou e Week-End, compostas por Antoine Duhamel. É um trabalho precioso e mesmo aquilo que precisava para acalmar os dias que correm. Ouvir faixas como Ferdinand, Pierrot ou Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujours (esta última com a voz de Anna Karina), é uma belíssima experiência.
Ouvir o filme sem imagens! Lembrar as imagens que ouvimos! O cinema na cabeça! Je suis fou, bien sur!
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Pedro

Pedro: sei que não me conheces, mas que escreves sobre mim. E isso não me incomoda, nem me perturba, tampouco. o que me intriga é saber que me escolheste como personagem dessas histórias verdadeiras que inventaste nas páginas do teu livro e que não me tenhas avisado disso. Apanhaste-me de surpresa, Pedro. E essa surpresa quase me fulminou... Passado o susto, o que me causa alguma estranheza é saber que vou vivendo em algumas palavras que não são minhas, mas que me pertencem por inteiro, como se me conhecesses e escrevesses sobre mim. Mas isso, ambos sabemos, não pode ser verdade, pois não?
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Grito

Foi ao entardecer. Tentei silenciar o grito para que ninguém o ouvisse e o estrondo ecoou apenas dentro do que sobrava de mim, destroço humano aos pés da cama. Imaginei que a terra ouviria para sempre aquele gemido surdo e que os pássaros, em companhia do sol que se espreguiçava lentamente, partiriam incomodados para todos os destinos do mundo à procura do sossego desejado.
*esta imagem foi retirada do site httpvidroazulruc.blogspot.com
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Poema
Um sopro de luz
que dure o tempo
de outras vidas!
E é bom viver
sem tempo
e sem limites
sem chegadas
nem partidas
que dure o tempo
de outras vidas!
E é bom viver
sem tempo
e sem limites
sem chegadas
nem partidas
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Fim
Spiritualized

Os meus amados Spiritualized estarão de volta aos discos no próximo (mas tão distante...) mês de Maio, dia 19. O disco terá como título Songs in A & E. Anunciam-se 18 faixas, sendo que 6 são interlúdios. Parece que ainda não é desta que poisam em Portugal para apresentarem este novo trabalho, o que me faz pensar seriamente em ter de ir a Londres ( 05-20 London, England - Koko ), ou a Barcelona ( 06-18 Barcelona, Spain - Benicassim Festival ) para os ver e ouvir ao vivo.
A acontecer, seria a primeira vez. E todos nós sabemos que a primeira vez é sempre memorável...
Poema
Aprender a morrer
aprender sem enganos
e sem sabermos
que coisa é essa
tão humana e definida
Aprender a morrer:
e para isso
temos toda a nossa vida
aprender sem enganos
e sem sabermos
que coisa é essa
tão humana e definida
Aprender a morrer:
e para isso
temos toda a nossa vida
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
(I'm Always Touched by Your) Presence Dear

Pela enésima vez, mais uma compilação da maior banda pop dos anos 70 e 80. Tenho tudo sobre eles e uma enorme vontade completista de ter mais esta edição. Cá por casa há sempre espaço para os Blondie. Em casa e em mim, está claro. E aquele olhar..., ainda hoje me perturba imensamente!
* o título deste post é o nome de uma das primeiras canções da banda
Feridas

Com uma energia incontida, risquei no chão a tua imagem. Feri as mãos ao fazê-lo. Rasguei a pele. Há feridas que transbordam os corpos que se ferem. Sempre soube que era assim. Mas há feridas maiores que se tratam com gestos anteriores à fúria. Com suaves gestos sentidos, imaginados. Feridas que se curam com pingos de sangue das mãos, derramados em forma de coração.
*esta imagem foi retirada do site httpvidroazulruc.blogspot.com
Os corpos
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Para sempre
Antes eras assim, trigueira, capaz de piruetas para me fazeres feliz. E ainda és. Os meus olhos é que estão diferentes, pouco aptos às contingências da vida.
Mesmo sem saberes, ainda te sinto como eras, como sempre foste para mim. Uma boneca. Uma boneca com a alma mais doce que existiu. E a minha alma ainda chama por ti, mesmo sabendo que a tua já partiu.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Poema
Parece simples
unir palavras
que me revelem
parece pouco
parece apenas
uma escolha
um momento
que acontece
Talvez pareça
ser só um sonho
que inicio sem saber
e sem saber
desaparece
unir palavras
que me revelem
parece pouco
parece apenas
uma escolha
um momento
que acontece
Talvez pareça
ser só um sonho
que inicio sem saber
e sem saber
desaparece
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Eu e Tori Amos

Hoje passei a manhã com Tori Amos. A manhã toda. No sofá, cantámos mais do que conversámos. Enfim, eu não cantei... Apenas a voz de Tori a encher a sala. Quando cantou Hey Jupiter, tremi um pouco. Cantou-a de novo e fechei os olhos.
Não conto o que pensei. Seria deselegante para com quem foi tão intensa na voz, tão vibrante nas melodias do piano. Deixo apenas uma ideia:
"And this little masochist
Is lifting up her dress
Guess I thought I could never feel
The things I feel "
E prometeu voltar um dia mais tarde. Quando chegar o dia, aí sim, conversaremos.
* Hey Jupiter está incluida no disco Boys For Pele
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Vazio recortado

A solidão tem o som de uma cadeira de baloiço que não range. Há muito tempo. Porque houve um dia em que não vieste, porque noutro dia o cheiro das torradas da manhã não se fez sentir, mais tarde era o coração que já não batia, nem nos sentimentos da memória batia o teu coração.
Hoje, só nas palavras te encontro. Nas palavras e no vazio recortado da cadeira de baloiço inexistente.
* esta imagem foi retirada do site http://bocadosdetudo.blogspot.com/
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Poema
Silêncio
apenas um minuto
de sossego absoluto
para que me perca
nos caminhos escolhidos
Ao longe
os sentidos dançam
e estamos tão perto
tão longe e perto
do que nos parece nosso
muito nosso
tão seguro
e tão incerto
apenas um minuto
de sossego absoluto
para que me perca
nos caminhos escolhidos
Ao longe
os sentidos dançam
e estamos tão perto
tão longe e perto
do que nos parece nosso
muito nosso
tão seguro
e tão incerto
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