quarta-feira, 4 de maio de 2016

Os dias felizes! (una llamada a la acción)


Sr. Chinarro (Antonio Luque) e eu.
(Hotel Petit Palace, Calle del Arenal, Madrid, 29 de abril)


(com Jaime Beltrán, dos Pájaro Jack)

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Refrão para uma canção futura

Tenho o coração partido
que não para de doer

mas serei um bom marido
para quem gosta de sofrer

sábado, 9 de abril de 2016

Poema

As palavras
os versos
os poemas
feitos à mão

Resta-me apenas
refazer
o coração

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Poema


Adília e eu
temos o mesmo apelido
mas nos géneros
nada nos emparelha

Ela bebe capilé
eu sempre bebi groselha


sexta-feira, 1 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Herói Discreto


Depois de me ter rendido ao livro A Civilização do Espetáculo (leitura recentemente terminada), ando agora fascinado por este O Herói Discreto. Na verdade, Mario Vargas Llosa é um velho e bom amigo com quem não convivia há já algum tempo. Com novo romance já publicado, embora ainda não entre nós, Mario Vargas Llosa continua a ser um dos meus romancistas de eleição. O Herói Discreto apenas me avivou, de novo, essa íntima certeza.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Instruções de voo

Prenda um cordel
a uma palavra
e atire-a para longe

(se não voar
alguém voará
por si)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Poema

a respiração do vento
vai virando uma a uma
as páginas do pensamento


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um imenso adeus


«Do mundo, nós dizemos que as leis da gravidade universal são as enunciadas por Newton, ou que é verdade que Napoleão morreu em Santa Helena a 5 de maio de 1821. E todavia, se tivermos um espírito aberto, estaremos sempre dispostos a rever as nossas convicções, no dia em que a ciência enunciar uma reformulação diferente das grandes leis cósmicas, ou um historiador descobrir documentos inéditos que provem que Napoleão morreu num navio bonapartista quando tentava a fuga. Em contrapartida, em relação ao mundo dos livros, proposições como Sherlock Holmes era solteiro, a Capuchinho Vermelho foi devorada pelo lobo mas depois libertou-a o caçador, Anna Karénina mata-se, permanecerão eternamente verdadeiras e nunca poderão ser refutadas por ninguém. Há pessoas que negam que Jesus fosse filho de Deus, outras que inclusivamente põem em causa a sua existência histórica, outras que afirmam que é o Caminho, a Verdade e a Vida, outras ainda que consideram que o Messias ainda está para vir e nós, seja como for que pensemos, tratamos com respeito estas opiniões. Mas ninguém tratará com respeito quem afirmar que Hamlet se casou com Ofélia ou que o Super-Homem não é Clark Kent.» 
Sobre a Literatura, Umberto Eco.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Poema

Chegou para ficar
a notícia da tua morte

Que má sorte o dia
em que o sol fingiu nascer

Pudera eu ficar contigo
e a manhã não se faria

Assim tão negra
e tão vazia

Fazendo-me duvidar se eras tu
ou era eu que aí morria

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

(I Am Still Touched by Your) Presence, Bowie.


Capa da revista Uncut de março próximo. 
Mais um tributo ao génio.

* o título deste post recorda uma conhecida canção dos Blondie, um dos poucos ídolos vivos da minha juventude.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Je Suis Bowie


Caiu o pano sobre a vida de David Bowie. O mundo terá estremecido, sem que déssemos conta de que qualquer coisa estranha se passava. Devia estar a dormir, seguramente, mas quero acreditar que uma bonita melodia atravessou a minha noite, fazendo solto o sono que me embalou.
Depois, já desperto para mais um dia, recebi a terrível notícia... Era o tal estremecimento que falava há pouco. Chegou tarde, da mesma forma como eu próprio cheguei a Bowie, algo tardiamente. É que passei algum tempo a ouvir coisas que só existiram porque Bowie existiu, e não dei conta disso durante um largo período, desperdiçando horas e horas e horas a ouvir sucedâneos, em vez de dar valor ao original. Coisas da juventude, de que ainda hoje me penetencio.

Passei a manhã a dar aulas, e reservei os primeiros minutos de cada uma para falar de David Bowie. Disse aos meus alunos que eu, que tanto gosto de ser professor de Português e que não me vejo a ensinar qualquer outra matéria, gostaria de ser hoje, e apenas hoje, professor de Inglês. Se assim fosse, passaria as minhas aulas a falar do homem que inventou Ziggy Stardust, Threepenny Pierrot, The Thin White Duke e tantas outras marcantes personagens que soube encenar em toda a sua vida. A encenação, o teatro, a vida artificial, mesmo que coincidente com a verdadeira, foram o palco estético e musical de Bowie. Foi aí, nesse limbo entre o que existe e o que queremos que exista, que David Bowie soube viver, e viveu uma vida cheia, com toda a certeza. Eu continuarei a viver a minha parca vida, agora sem ele, mas sempre com ele também. Passaremos os dois, como neste preciso momento, a ouvir o que nos deixou, lado a lado. Umas vezes em silêncio, pensativo, outras de forma mais enérgica, quase rebel rebel. Nunca mais me atreverei a deixá-lo longe de mim por muito tempo. Até porque já tenho idade suficiente para perceber que a eternidade é uma mentira, sobretudo para alguns. Para Bowie, ao contrário, a eternidade não terá fim.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os Melhores Discos de 2015


Já é uma tradição antiga aqui no I Blog Your Pardon, pelo que se repete, uma vez mais, este ano. Cá estão os eleitos!

  • 1) Kamasi Washington - The Epic
  • 2) Ana Cláudia Lomelino - Mãeana
  • 3) Julia Holter - Have You In My Wilderness
  • 4) Sufjan Stevens - Carrie & Lowell
  • 5) of Montreal - Aureate Gloom
  • 6) Dônica - Continuidade dos Parques
  • 7 Benjamin Clementine - At Least For Now
  • 8) FFS - FFS
  • 9) Revolutionary Army of The Infant Jesus - Beauty Will Save The World  
  • 10) Boogarins - Manual ou Dia Livre de Dissolução dos Sonhos
  • sábado, 5 de dezembro de 2015

    Arte


    A irmã e o dentista de Grant Wood (modelos de American Gothic)

    terça-feira, 24 de novembro de 2015

    Ninguém escreve como tu

    Andei a vasculhar pens antigas e deparei com alguns textos meus que escrevi para jornais e revistas. Recuperei este, que deve ter sido escrito há uns 16 ou 17 anos, era a minha filha muito pequena. Tudo a propósito de uma extraordinária entrevista que António Lobo Antunes deu à Pública (revista do jornal Público), se não me engano, e que tinha como título Ninguém Escreve Como Eu. Deixo-o aqui, para "memória futura".

    ...

    Ninguém escreve como tu. Ninguém. E não era preciso dizê-lo. A verdade, por muito que custe a muitos, é que ninguém escreve como tu. Nem mesmo tentando, como agora, na febre da escrita às três da manhã, onde o silêncio é tanto que paro e escuto a memória já um pouco adormecida de uma voz que diz
    - «Você é um anarquista, um marginal, você pactua com o leste, você aprova a entrega do Ultramar aos pretos»
    e olho para o teto para aliviar os olhos no branco da tinta do teto sem as linhas do papel por cima do branco imaculado das folhas, e de súbito a voz da minha filha que me chama
    - «você aprova a entrega do Ultramar aos pretos»
    do fundo do seu quarto e sei que deve estar de joelhos por cima do edredon da Disney com os braços abertos para o colo que só os pais sabem dar
    - papá, papá
    largo a caneta e o caderno, tiro os olhos do branco do tecto e reparo numa ponta de humidade ( porque o inverno vai longo e húmido, pouco chuvoso é certo, mas que está a ser húmido, está )
    - papá, papá
    e os chinelos que não estão no sítio para os calçar e a voz de novo a trovejar
    - «você é um anarquista, um marginal»
    os braços da minha filha esticados para o conforto dos meus, e ao contornar a cama tropeço nos chinelos fora do sítio habitual e digo
    - já vou pipoquinha, já vou
    sempre com a ideia da voz distante que a razão não apagou ainda, procuro a luz do quarto para não tropeçar em mais nada, para não assustar a minha filha já de si assustada por sonhos que todas as crianças teimam em ter a meio da noite, a meio dos sonhos dos adultos, tomo-a nos braços e faço o percurso inverso até ao ponto de partida, esquivando-me das armadilhas dos chinelos e das vozes
    - «você aprova a entrega do Ultramar aos pretos»
    quando são já quase quatro horas da manhã e a vontade inicial destas linhas era apenas dizer que ninguém escreve como tu, António, por muito que custe a muitos, ninguém escreve como tu.
    (Os excertos entre aspas foram retirados da sua primeira obra publicada, Memórias de Elefante. )

    sábado, 14 de novembro de 2015

    Paris sera toujours Paris


    Poema

    O senhor Ricardo Reis
    nunca chegou a saber
    que a sua Lídia
    casou com
    Álvaro de Campos

    E que foram viver para
    perto da foz
    de um rio importante
    onde os dois
    (antigamente)
    nunca estiveram

    Não sei se foram felizes
    ou não
    mas que fizeram muitos
    e bons disparates
    lá isso fizeram

    terça-feira, 10 de novembro de 2015

    Poema

    Há aves aflitas
    no íntimo de certas
    palavras

    O mesmo acontece
    quando te deitas
    ou quando te levantas

    Enquanto as aves procuram
    espaço no interior
    das gargantas das palavras

    No teu corpo
    a pele liberta a voz
    de aves infinitas