segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A morte de um poeta é sempre um poema triste


Bela, bela
Mais que bela
Mas como era o nome dela?
Não era Helena, nem Vera
Nem Nara, nem Gabriela
Nem Tereza, nem Maria
Seu nome, seu nome era
Perdeu-se na carne fria
Perdeu-se na confusão
De tanta noite e tanto dia
Perdeu-se na profusão
Das coisas acontecidas
Constelações de alfabeto
Noites escritas a giz
Pastilhas de aniversário
Domingos de futebol
Enterros, corsos, comícios
Roleta, bilhar, baralho
Mudou de cara e cabelos
Mudou de olhos e riso
Mudou de casa e de tempo
Mas está comigo
Perdido comigo
Teu nome
Em alguma gaveta

(poema de Ferreira Gullar, tão bem cantado por Milton Nascimento)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Poema

Pior do que tudo
pior que as desgraças naturais
que varrem o mundo
com destruições
a qualquer preço

Pior do que tudo
pior que as mortes e horrores
sem endereço
pior do que a sede
e do que fome
é saber que
toda a saudade tem um nome

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Poema

a literatura
com tudo o que nela se mistura
não é uma coisa só

só é a vida pequena
esboço de alma serena
pedaço migalha pó

literatura é mais acima
lugar alto onde se avista
a vida que se imagina

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Poema

Apenas livros
livros mais do que tudo
livros em sinal de comunhão

Ao darmos livros
damos também a mão
o gesto a palavra o coração

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Caetano e eu


Depois de 35 anos de espera, aconteceu!
(um retrato a branco e preto para alegrar o meu coração)

sábado, 13 de agosto de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Poema

As línguas misturam-se em agosto
enquanto o sol
brilha na demência
de ser rei

As mágoas dissolvem-se também
neste mês
sem ponta da rancor
ou acidez

Por isso
é por aqui que ficarei

domingo, 26 de junho de 2016

segunda-feira, 30 de maio de 2016

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Love of Lesbian - El Poeta Halley (2016)

“si las palabras se atraen que se unan entre ellas y a brillar”
A música que se faz aqui ao lado, na vizinha Espanha, está cada vez mais presente no Altamont. Por aqui já passaram Antonio Luque e o seu projeto Sr. Chinarro (mais do que uma vez, até), Migala, e chegou hoje o momento de dar-vos conta de uma banda catalã (quase) totalmente desconhecida por terras lusas, o que é uma pena. Já com vários anos de carreira e glória recente, os Love Of Lesbian apresentam-se no topo da sua forma com este El Poeta Halley, fresquíssimo trabalho de longa duração que começa a marcar pontos logo pelo objeto físico (duplo vinil ou cd-livro), mesmo antes de ouvirmos o que nos traz dentro. E o que nele podemos escutar é um disco denso, complexo, pouco amigo de escutas apressadas, mas que mesmo num primeiro contacto nos prende através de algo difícil de explicar. As melodias, as canções nada radio-friendly (poucas são as que têm os três minutos e meio da praxe, havendo-as com seis, sete, e mesmo quase dez minutos), as letras crípticas deste disco, tudo parece não ajudar ao agrado final, mas o engano é redondo: El Poeta Halley é, para mim, a primeira grande surpresa deste ano! Tenho-o ouvido em repeat, num constante loop que me foi ajudando a perceber melhor o que o álbum tem para oferecer. Poderemos estar na presença, salvo o eventual exagero que nunca será grande, do primeiro disco indie literário da história da música.
O trabalho que aqui vos trazemos encerra algumas temáticas. A infância, por exemplo, eterno retorno dos adultos que tentam fugir à sentença do tempo, é um dos pilares maiores desta obra conceptual. É nesse farrapo de memória que se funda a grande viagem que El Poeta Halley propõe realizar. Temos sonhos, fantasmas, drogas, temos musas inspiradoras, uma extensa narrativa envolta em música. E temos, sobretudo, um objeto sonoro que dá que fazer, que nos desassossega, que exige uma entrega paciente por parte de quem o coloca a rodar.
El Poeta Halley vem de longe e conta-nos uma história: “¿Qué os puedo contar de la leyenda del aire / el indomable e inolvidable Halley Star? / Fue mi gran invención / pero no ha vuelto más a buscarme / adivinando antes que yo mi deserción”. É assim que o disco se inicia, de forma tranquila, para ir, aos poucos, ganhando uma forte pulsação de guitarras. A voz forte de Santi Balmes guia-nos por todo o disco, espécie de referência e ponto seguro que vamos seguindo enquanto conta e canta as aventuras de Halley Star. E assim, vamos por “Bajo El Volcán”, single de avanço do álbum, planeando “En Busca Del Mago” e por “Océanos de Sed”, “Psiconautas” estranhos no espaço musical e sideral que os Love Of Lesbian promovem com total mestria e segurança. Por entre as treze canções do disco há (como dizer de outra maneira?) um fogo lento, um lume brando que confere união a todo o álbum. E há também, obviamente, grandes e insinuantes canções como “Planeador”, a já referida “Bajo El Volcán”, “Los Males Pasajeros” (que delícia ouvir o verso “Todo eso se irá, huirá, fluirá, caerá, se irá” delicadamente cantado por Santi Balmes), a bela “En Busca Del Mago”, a tranquila “Canción de Bruma”, até que, na reta final do disco, surge “El Poeta Halley” com Joan Manuel Serrat recitando, na segunda metade da canção, o poema “Epílogo”. É assim que termina este último trabalho dos Love Of Lesbian, quatro anos depois do duplo La noche eterna. Los días no vividos.
Para além das canções que aqui podemos ouvir, algumas dúvidas foram ganhando forma na minha cabeça: como compreender este El Poeta Halley? O que quer ele dizer, de tão denso de significações metafóricas e simbólicas? Talvez não seja boa a pressa de respostas mais óbvias, mas este artigo tem de ter um fim, e por isso não me parece absurdo definir o disco como um momento de grande introspeção poética, uma viagem ao interior do ser inventivo, tão divisível que se reparte por sonhos de personagens que são, ao mesmo tempo, o corpo do seu próprio criador. Como se a surpresa da descoberta do que fomos fosse agora mais do que um mero resíduo, um lastro tímido que se recuperou até ser de novo voz. El Poeta Halley representa, assim, um espaço onde a palavra (e a música, claro) ocupa o centro da criação. E, nesse sentido, a palavra é, ao mesmo tempo, a ordem que desencadeia a desordem dos encontros inesperados, e a força motriz que unifica todo o processo de criação.
* texto de minha autoria saído no site Altamont - Music For The Music Generation

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Os dias felizes! (una llamada a la acción)


Sr. Chinarro (Antonio Luque) e eu.
(Hotel Petit Palace, Calle del Arenal, Madrid, 29 de abril)


(com Jaime Beltrán, dos Pájaro Jack)

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Refrão para uma canção futura

Tenho o coração partido
que não para de doer

mas serei um bom marido
para quem gosta de sofrer

sábado, 9 de abril de 2016

Poema

As palavras
os versos
os poemas
feitos à mão

Resta-me apenas
refazer
o coração

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Poema


Adília e eu
temos o mesmo apelido
mas nos géneros
nada nos emparelha

Ela bebe capilé
eu sempre bebi groselha


sexta-feira, 1 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Herói Discreto


Depois de me ter rendido ao livro A Civilização do Espetáculo (leitura recentemente terminada), ando agora fascinado por este O Herói Discreto. Na verdade, Mario Vargas Llosa é um velho e bom amigo com quem não convivia há já algum tempo. Com novo romance já publicado, embora ainda não entre nós, Mario Vargas Llosa continua a ser um dos meus romancistas de eleição. O Herói Discreto apenas me avivou, de novo, essa íntima certeza.