quarta-feira, 22 de abril de 2015

Poema

Foi tudo assim
repentino
o sangue do destino 
fez tudo secar
quando a chuva veio
e acabou por
me inundar

sábado, 11 de abril de 2015

Coisas novas, coisas antigas

Fosse sempre assim, a vida: 
o prazer das coisas antigas e a delícia das coisas novas.



Popol Vuh - In Den Garten Pharaos (1971)



David Sylvian e Holger Czukay - Plight & Premonition (1988)



Eef Barzelay - Eldorado 13 Slash 14 (2015)



Stealing Sheep - Not Real (2015)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Poema

Queria a água 
toda minha
imensa 
a cobrir as terras 
até ao teto
do céu

Só bem depois
mergulharia
a estranheza 
do meu corpo
até vir ao de cima
um novo eu


sexta-feira, 27 de março de 2015

sexta-feira, 20 de março de 2015

Gong Est Mort



Há notícias que custam a digerir. Mesmo tendo sabido do acontecimento da morte de Daevid Allen no dia em que ocorreu o óbito, só agora faço menção ao facto, numa espécie de celebração de 7º dia.



Goodnight Daevid Allen

terça-feira, 17 de março de 2015

Imortalidade


Nunca tinha visto esta imagem. Por vezes olho para ela, e parece-me estar na presença de uma montagem. Mas, na verdade, isso pouco importa. Dois dos meus mais adorados brasileiros estão aqui, lado a lado, e parece-me ser a Nara Leão por trás deles. Dos três, só Caetano se encontra entre nós, fisicamente falando. Nara partiu cedo, Drummond mais tarde, mas cedo também, uma vez que o queria imortal. No entanto, é a própria imortalidade que aqui se encontra retratada. O som, a palavra, as vozes de quem viveu e vive para fazer o (meu) mundo mais feliz. 

domingo, 8 de março de 2015

É preciso amar Tom Zé (desde o início)

A editora inglesa Mr. Bongo reeditou os dois primeiros álbuns de Tom Zé. Esse acontecimento merece o meu inequívoco aplauso, e torna presente dois álbuns (os primeiros dois) do seu longínquo passado. Em boa hora, claro. Esquecidos no tempo, e afastados há muito do olhar crítico que ambos os discos merecem, Grande Liquidação e Tom Zé estão de novo disponíveis no mercado discográfico. Um deles, o segundo, ainda não o tinha em formato físico, pelo que já vem a caminho. Que chegue depressa e bem, que tem cá um lugarzinho especial à sua espera.



Tom Zé - Grande Liquidação (1968)



Tom Zé - Tom Zé (1970)

quarta-feira, 4 de março de 2015

Aznavour (II)



(um homem e uma mulher)


(um homem e uma mulher: na vida como nos filmes)


(a pele e o aço)


Tirez Sur Le Pianiste é um filme de culto. Truffaut deu-nos um drama policial de grande beleza, mas o que aqui importa hoje, mais do que o filme e os seus encantos, é a presença de Aznavour. O mestre da canção também fez cinema, e bem. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Aznavour (I)


Charles Aznavour é um monstro da canção francesa, e paixão crescente em mim. Ultimamente é com ele que tenho andado, de ouvidos atentos à arte incomparável do seu canto. Também no cinema o conheço há muito, mas isso ficará para outro post. Por hoje, e para que estas linhas se tornem som e imagem, recordo apenas «La Bohème», momento mais que perfeito da sua longa carreira. A melodia, o texto, a interpretação, a voz, tudo é sublime. Deixo-vos dois videos da mesma canção por não ter conseguido decidir-me apenas por um. Vale mesmo a pena vê-los, lendo depois o texto para que o maravilhamento se complete.


a preto e branco
e a cores 



Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criais famine
Et toi qui posais nue

La bohème, La bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, La bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelques bistros
Contre un bon repas chaud
Nous prenaient une toile
Nous recitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver

La bohème, La bohème
Ça voulait dire tu es jolie
La bohème, La bohème
Et nous avions tous du génie

Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'asseyait enfin
Devant un café-crème
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie

La bohème, La bohème
Ça voulait dire on a vingt ans
La bohème, La bohème
Et nous vivions de l'air du temps
Quand au hasard des jours

Je m'en vais faire un tour
A mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Don't plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts

La bohème, La bohème
On était jeunes, on était fous
La bohème, La bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Peter Greenaway is back


 2015 é ano de novo filme de Greenaway, o que é, pelo menos para mim, uma excelente notícia. O filme trata dos 10 dias passados no México pelo cineasta russo, durante os quais Eisenstein realizou o documentário "Que Viva Mexico!", sobre o dia dos mortos. A par do filme (primeira boa notícia) há ainda a banda sonora, que geralmente é excelente nos filmes do realizador. A ver e a ouvir, portanto.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Poema

Ontem esqueci-me de dizer
todas as coisas que queria
o tempo é curto
eu bem sei
e tu sabes que o tempo das palavras
não tem fim
nem tem começo

Talvez por isso eu me esqueço
desde o início
de dizer o que queria
não fosse este sobressalto
este reboliço
e as palavras teriam
um dom maior e um outro viço

Mas não as culpemos assim
são tão frágeis
tão singelas
que mesmo quando não dizem
o que queria dizer-te
eu só me zango comigo
nunca me zango com elas

No fundo
o que acontece é bem simples:
o que venho aqui dizer
posso dizer-to em voz muda
no silêncio de algum verso
que ainda está
por escrever

Fica o recado assim dado
e fico eu mais tranquilo
por te dizer o que queria
é bom saber que o que digo
te satisfaz por inteiro
pois não dizer o que é dito
é o dizer mais verdadeiro

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O psicadelismo está na moda


Padrão (ou padrões) da beleza feminina com sabor a passado, no tempo presente.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Poema

(sem sofrimento aparente
a aurora rasga as horas nuas do dia
sem um só gemido seu

e quando um pássaro dormente de sono
levanta as asas abanando o céu
o dia nasce e amanheço eu)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Humor


Depois de um início de ano trágico (ver post anterior) há que olhar com sentido de humor para as coisas que mais nos agradam no mundo. Mesmo que uma certa ideia de autocensura permaneça. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Olá, 2015!


O ano de 2014 está a acabar. Sopram-se as velas desse ano quase passado, e logo outro se perfila. Aqui, neste I Blog Your Pardon, o ano que agora finda foi de alguma receção, como é moda dizer-se nos tempos que correm. E, previsivelmente, assim vai manter-se em 2015. Uma coisa é certa: não terminará. Continua a ser um espaço que me agrada, embora me tenha dividido por outros, o que implicou alguma desaceleração, digamos assim. Na verdade, o que importa é continuar, e isso será seguro nos próximos doze meses. Se nos fizer companhia, ainda melhor. Um Bom Ano para todos. Voltem sempre.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Os 10 de 2014


É já um hábito que prezo há muito. Mostrar aqui os 10 discos que mais gostei de ouvir no ano que agora finda, é um exercício que faço com muito gosto. Num ano musical marcado por muitas e boas surpresas e acontecimentos (sobretudo pelo trabalho que vou desenvolvendo com o site Altamont - Music For The Music Generation), escolher estes 10 discos não foi (aliás, nunca é) tarefa fácil. Sempre dividido entre a música que se vai fazendo com sotaques diferentes pelo mundo fora, talvez a grande surpresa venha do facto do primeiro lugar ser para um disco instrumental, e de Jazz. Enfim, talvez isso também seja sinal dos tempos. Ou melhor, do meu tempo. É também um pouco do meu tempo que aqui vos proponho. Passei muitas horas a ouvir estes 10 discos. Muitas e boas horas, e muitos e bons discos, estes e outros. Até para o ano, mais ou menos por esta altura. Era bom sinal voltarmos a estar juntos.

1) Dylan Howe – Subterranean: New Designs On Bowie’s Berlin
2) Luke Haines – New York In The 70’sDylan Howe
3) Sr. Chinarro – Perspectiva Caballera
4) Tom Zé – Vira Lata Na Via Láctea
5) Moreno Veloso – Coisa Boa
6) Damon Albarn – Everyday Robots
7) Les Big Byrd – They Worshipped Cats
8) Camera – Remember I Was Carbon Dioxide
9) Beck – Morning Phase
10) Joan As Police Woman – The Classic



Deixo ainda o meu momento musical do ano, marcado por um feliz reencontro com o vinil. O pequeno texto que redigi a esse propósito para o site Altamont, é o que a seguir se escreve: 

O reencontro definitivo com o vinil, com as “rodelas pretas” da minha juventude. Desapareceram (ou quase) da minha vida, e com esse desaparecimento esqueci-me da alegria e do prazer de andar com discos debaixo do braço, do prazer e da alegria de os tirar das capas para os colocar no prato (com a delicadeza que devemos às coisas boas), dispostos ao jugo da agulha que lhes revela a alma. Essa alegria e esse prazer deixaram de ser nostálgicos, para se tornarem presentes, uma vez mais. E para todo o sempre, espero.

* a capa em destaque é a do disco que escolhi para número 1 do meu Top de 2014.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Poema

Antes do fim
há um fim ainda maior
uma desistência prévia
que ganha força
desde o começo

Começar e findar
são as balizas
em que me meço

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Poema

Não importa a folha
o papel de compra
o livro aberto
na página incerta

Não importa a letra
seja concreta
ou abstrata
importa é bater
à porta mesmo sabendo
que está sempre
aberta

Só importa a hora
de ficar alerta

Há uma coisa certa
uma só coisa certa

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Gilengendraemgilrouxinol



Estar na presença de duas lendas vivas da música, em pouco mais de uma semana, é algo que não acontece com muita frequência. No final do mês de outubro, estive no concerto de Wayne Shorter, e ontem, exatamente no mesmo local desse evento, assisti ao show de Gilberto Gil, nome incontornável do tropicalismo brasileiro e um dos nomes maiores da música popular brasileira de todos os tempos. A afeição que sinto por Gilberto Gil vem do tempo da minha juventude, e desde essa distante data que nunca o perdi de vista nem de ouvido. Se é certo que nem sempre a sua carreira me entusiasmou demasiadamente (em particular alguns períodos de flirt com o reggae e com o baião), também vos digo que noutras alturas Gilberto Gil ombreou lado a lado, na minha cabeça, com os deuses Caetano e Milton. Os discos homónimos que lançou nos finais dos anos 60 e início dos 70, bem como Refavela,RefazendaRealceLuarUm Banda UmExtraRaça Humana ou Dia Dorim Noite Neon são discos que fazem parte da minha vida e que me trazem memórias importantes e imorredouras. Ou ainda aqueles dois soberbos registos ao vivo, os enormes Refestança (com Rita Lee) e Gilberto Gil ao Vivo em Montreux, por exemplo, também fazem parte desse generoso lote de álbuns que guardo no coração. No entanto, alguns trabalhos posteriores aos acima mencionados, pouca qualidade trouxeram aos meus ouvidos. O Eterno Deus Mu DançaParabolicamaráQuanta ou Banda Larga Cordel, entre outros, afastaram-me um pouco do bom baiano de Salvador. Precisava de me reconciliar com Gil. Precisava de fazer as pazes com o passado que nos foi comum, digamos assim. Depois de o ter visto ao vivo várias vezes, uma das quais partilhando o palco com Caetano Veloso, tive de novo a fortuna de assistir ao seu mais recente espetáculo europeu. Acústico, a solo, com apenas dois violões em palco, este Gilberto Gil vintage mostrou um homem no topo da sua forma, contido pelo formato e pelo conceito do show, mas de asas fortes e abertas. Foi capaz de planar até ao longínquo passado do tropicalismo, sobrevoando muitos outros momentos da sua recheada carreira.
gilengendra – Gil imaginou um espetáculo de homenagem a muitos dos grandes nomes da canção brasileira, presenteando-nos com hora e meia de um show muito equilibrado e prazeroso. Começou de mansinho e foi ganhando força até explodir. Gil resolveu em boa hora (juntamente com Flora, sua mulher) apresentar-se com os melhores, tirando deles muito do legado que deixaram, ao mesmo tempo que se vestiu nessas roupagens terceiras. E que bem coube nesse fato de boas linhagens canoras. Ficou elegante, o show. Ficou para lá disso, para meu supremo encantamento. Gil resolveu fazer um concerto encantador, e deu-se bem com o conceito de partilhar com os melhores algumas das suas melhores canções. gilengendra sempre tudo muito bem.
gilengendraemgil – Gil tem muitos anos de carreira, muitos anos de palco e de discos, milhares de quilómetros de canções solares, outras um pouco mais inquietas e inquietantes. Canções suas que tomamos como nossas. Canções que nos adotaram no preciso instante em que também as adotámos. Foram muitas as que passaram ontem pela sala mais nobre do Centro Cultural de Belém. «Rio, Eu Te Amo», «Aquele Abraço», «Flora», «Expresso 2222», «Andar com Fé», «Toda Menina Baiana» e «Esotérico» são alguns dos melhores exemplos. Cantou-as com a garra de sempre, com insuspeita entrega máxima, em máxima rotação. Gilberto Gil tem o ritmo à flor da pele, todo ele é música, todo ele é arte. Cantar a sua própria arte na sua própria voz, nos trejeitos de sempre (como acontece no final das canções, depois do último acorde do violão, levantando o braço direito à altura da cabeça, que se inclina ligeiramente tombada, num gesto imortalizado na imagem da capa do disco Gilberto Gil em Concerto, para o projeto “Luz do Solo”, de 1985), nas brincadeiras com o público, tão do seu costume desde o começo dos seus tempos de artista. gilengendraemgil como ninguém.
gilengendraemgilrouxinol – Gil foi porta voz do canto de outros, rouxinol cantante em outras línguas, outras linguagens artísticas, apropriando-se delas com a mestria costumeira. Cantou canções marcantes das carreiras de Orlando Silva, Tom Jobim, Bob Marley, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Roque Carvalho e Caetano Veloso. Esteve na companhia dos eleitos, evocando-os um por um. Muitas palavras sobre o Rio, outras sobre a Bahia, sobre Lisboa, Roma, Paris. Emocionou-se, no começo do encore, ao dizer que amanhã (hoje) voltaria para casa. Mas antes, em pleno show e a plenos pulmões, mostrou-nos as suas versões de «Aos Pés da Cruz», «No Woman No Cry / Não Chore Mais», «Saudade da Bahia», «É Luxo Só», «Nossa Gente», «Maracatu Atômico» ou «Desde Que o Samba é Samba». A partilha deu-se de forma crescente, e os pedidos de «Canta, Lisboa» foram sendo mais presentes e mais correspondidos. Houve momentos em que toda a sala cantava, maravilhada. Foi bonito e comovente. Gil pode voltar para casa em paz. Gil pode voltar para casa com a certeza de que ficou também um pouco dele por cá, em todos nós. gilengendraemgilrouxinol de maneira absolutamente certeira.
Findo o concerto, a verdade dos versos da canção «Palco», que dizem «Eu como devoto trago um cesto de alegrias de quintal», foi ecoando na minha cabeça durante horas a fio. Levei para casa essecesto repleto dessas mesmas alegrias. Daí que o melhor da noite tenha sido a minha total reconciliação com Gil. Precisava tanto disso que nem sequer imaginam quanto. É que ambos temos uma bonita história em comum que de nenhum jeito pode ser minimamente beliscada. Saravá, mestre Gil! Mando-te calorosamente aquele abraço apertado, como há muito tempo não dávamos.
Nota de rodapé: apropriei-me foneticamente dos versos de «Gilberto Misterioso», canção de Caetano Veloso e Souzândrade presente no disco Araça Azul, para que pudessem servir de mote à estrutura deste texto. Originalmente, os versos dessa canção são apenas dois, e aparecem redigidos assim: «Gil em Gendra / Em Gil Rouxinol».
Alinhamento:
  • Palco
  • Aos Pés da Cruz [com citação final de Samba do Avião]
  • Desafinado
  • Rio, Eu Te Amo
  • Aquele Abraço
  • Tres Palabras
  • Flora
  • No Woman No Cry / Não Chore Mais
  • Three Little Birds
  • Saudade Da Bahia
  • Desde Que O Samba É Samba
  • É Luxo Só
  • Eu Só Quero Um Xodó
  • Nossa Gente
  • Maracatu Atômico
  • Expresso 2222
  • Andar Com Fé
  • Toda Menina Baiana
Primeiro e único encore:
  • Esotérico
  • O Pato
  • Esperando Na Janela
* reportagem de minha autoria feita para o Altamont
** sai aqui com algum atraso, mas justificadamente (ainda estou em paz com Gil)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014