Tive a infância retalhada
primeiro lá
ao sol
de outro hemisfério
depois aqui
ao frio
que nunca desejei
A infância era também
subir andares
de prédios
em esqueleto
e saltar
desde que a coragem
o permitisse
(não é outra coisa
isso da infância:
sobrevoar
os ares
sobre a planície)
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domingo, 19 de março de 2017
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Poema
Se fosse portável o amor
ou tivesse morada certa
Se fosse provável o amor
ou uma porta entreaberta
Seria melhor o amor
seria a vida mais completa
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Poema
Pior do que tudo
pior que as desgraças naturais
que varrem o mundo
com destruições
a qualquer preço
Pior do que tudo
pior que as mortes e horrores
sem endereço
pior do que a sede
e do que fome
é saber que
toda a saudade tem um nome
pior que as desgraças naturais
que varrem o mundo
com destruições
a qualquer preço
Pior do que tudo
pior que as mortes e horrores
sem endereço
pior do que a sede
e do que fome
é saber que
toda a saudade tem um nome
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Poema
a literatura
com tudo o que nela se mistura
não é uma coisa só
só é a vida pequena
esboço de alma serena
pedaço migalha pó
literatura é mais acima
lugar alto onde se avista
a vida que se imagina
com tudo o que nela se mistura
não é uma coisa só
só é a vida pequena
esboço de alma serena
pedaço migalha pó
literatura é mais acima
lugar alto onde se avista
a vida que se imagina
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Poema
Apenas livros
livros mais do que tudo
livros em sinal de comunhão
Ao darmos livros
damos também a mão
o gesto a palavra o coração
livros mais do que tudo
livros em sinal de comunhão
Ao darmos livros
damos também a mão
o gesto a palavra o coração
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Poema
As línguas misturam-se em agosto
enquanto o sol
brilha na demência
de ser rei
As mágoas dissolvem-se também
neste mês
sem ponta da rancor
ou acidez
Por isso
é por aqui que ficarei
enquanto o sol
brilha na demência
de ser rei
As mágoas dissolvem-se também
neste mês
sem ponta da rancor
ou acidez
Por isso
é por aqui que ficarei
domingo, 26 de junho de 2016
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Refrão para uma canção futura
Tenho o coração partido
que não para de doer
mas serei um bom marido
para quem gosta de sofrer
sábado, 9 de abril de 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Poema
Adília e eu
temos o mesmo apelido
mas nos géneros
nada nos emparelha
Ela bebe capilé
eu sempre bebi groselha
sexta-feira, 18 de março de 2016
Instruções de voo
Prenda um cordel
a uma palavra
e atire-a para longe
(se não voar
alguém voará
por si)
a uma palavra
e atire-a para longe
(se não voar
alguém voará
por si)
quarta-feira, 9 de março de 2016
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Poema
Chegou para ficar
a notícia da tua morte
Que má sorte o dia
em que o sol fingiu nascer
Pudera eu ficar contigo
e a manhã não se faria
Assim tão negra
e tão vazia
Fazendo-me duvidar se eras tu
ou era eu que aí morria
a notícia da tua morte
Que má sorte o dia
em que o sol fingiu nascer
Pudera eu ficar contigo
e a manhã não se faria
Assim tão negra
e tão vazia
Fazendo-me duvidar se eras tu
ou era eu que aí morria
sábado, 14 de novembro de 2015
Poema
O senhor Ricardo Reis
nunca chegou a saber
que a sua Lídia
casou com
Álvaro de Campos
E que foram viver para
perto da foz
de um rio importante
onde os dois
(antigamente)
nunca estiveram
Não sei se foram felizes
ou não
mas que fizeram muitos
e bons disparates
lá isso fizeram
nunca chegou a saber
que a sua Lídia
casou com
Álvaro de Campos
E que foram viver para
perto da foz
de um rio importante
onde os dois
(antigamente)
nunca estiveram
Não sei se foram felizes
ou não
mas que fizeram muitos
e bons disparates
lá isso fizeram
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Poema
Há aves aflitas
no íntimo de certas
palavras
O mesmo acontece
quando te deitas
ou quando te levantas
Enquanto as aves procuram
espaço no interior
das gargantas das palavras
No teu corpo
a pele liberta a voz
de aves infinitas
no íntimo de certas
palavras
O mesmo acontece
quando te deitas
ou quando te levantas
Enquanto as aves procuram
espaço no interior
das gargantas das palavras
No teu corpo
a pele liberta a voz
de aves infinitas
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Poema
Por onde quer que ande
haverá sempre
uma casa onde ficar
(uma casa
não é um lugar
apenas)
Uma casa é
um qualquer espaço
grande
cheio de coisas
pequenas
haverá sempre
uma casa onde ficar
(uma casa
não é um lugar
apenas)
Uma casa é
um qualquer espaço
grande
cheio de coisas
pequenas
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Poema
Pesam as pedras
como pesam as estrelas
Assim o corpo pesa
o sangue que balança
Pesa mais o corpo adulto
do que o sonho na criança
como pesam as estrelas
Assim o corpo pesa
o sangue que balança
Pesa mais o corpo adulto
do que o sonho na criança
terça-feira, 4 de agosto de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Poema para musicar
Nunca mais era sábado
e nunca foi
a relva por cortar
as unhas por roer
até os pássaros
em volta decidiram
não cantar
Nunca mais era sábado
e nunca foi
houve uma sexta
que falhou
mas que ninguém
à nossa volta
reparou
O que faltou afinal
não foi nada
de concreto
mas tardou-se
na procura
e ficou tudo
a céu aberto
e nunca foi
a relva por cortar
as unhas por roer
até os pássaros
em volta decidiram
não cantar
Nunca mais era sábado
e nunca foi
houve uma sexta
que falhou
mas que ninguém
à nossa volta
reparou
O que faltou afinal
não foi nada
de concreto
mas tardou-se
na procura
e ficou tudo
a céu aberto
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