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domingo, 11 de março de 2012

Lucifer N.Y.C.

Not I é o novo ep (apenas 17:06 minutos) em formato cd-r, da Fuck Off & Di. Lucifer N.Y.C. é o nome da banda que tem como figura principal a completamente desconhecida Lucy Brownhills, cuja voz já conhecia dos discos Raw Power Suite (de Holy McGrail, e com post a propósito neste blog) e Psychedelic Revolution, do meu adorado Julian Cope, também com o devido destaque neste espaço. Lucifer N.Y.C. não faz música, ou pelo menos não a faz da maneira habitual, digamos assim. O que aqui temos é ruído eletrónico, keyboards a soar ruidosamente, mas de forma controlada. Tudo parece servir a voz de Lucifer Brownhills que irrompe com cânticos (se assim podemos dizer) frios, como frios são todos os minutos deste ep. Alguma melodia e algum ritmo também se fazem ouvir. E é só. Parece pouco, e talvez seja, mas tudo se abre a outros universos e interpretações depois de ouvirmos Not I uma e outra vez ainda. Não é para todos os ouvidos nem para todos os momentos, mas nos momentos certos pode fazer pequenos milagres.

* nota final para a capa do ep, lindíssima.

sábado, 1 de outubro de 2011

Phaedra


Um disco outonal, para bem começar outubro. Na minha cabeça, desde sempre, outubro é um mês importante por marcar a fronteira entre dois mundos: o solar e o lunar. Entramos, em outubro, na sombra dos tempos. Agora tudo ficará mais denso, sombrio, menos iluminado pela cinza dos céus, pela profusão de nuvens e da chuva. Nem sempre acontece, é certo, mas na minha cabeça entro hoje nesse território que regressa todos os anos, ciclicamente. Daí que, para calar a escrita e aproveitar o som, vos deixo este disco. Sem mais palavras, até porque o disco também não as tem.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Time & Space


Absolutamente noturno, vagueante, paisagístico. Fechar os olhos e ouvir Queen Elizabeth é uma ótima solução para as noites que começam a mudar o tom meteorológico. Este projeto de Julian Cope e de Thighpaulsandra já mereceu menção neste blog, mais do que uma vez. A primeira parte dá pelo nome de Superstar (34:00), e a segunda tem o belíssimo título de Avebury: The Arranged Marriage of Heaven and Earth (31.30). Ambas apresentam-se como 2 Spontaneous Concertos For Time & Space. Tenho esta obra há quase 10 anos, e volto a ela várias vezes. Emerge à superfície da minha vida auditiva em momentos de maior necessidade de vazio, de silêncio. Nesses instantes (um pouco mais de uma hora) Queen Elizabeth é um previlégio, uma benção, uma espécie de sopro divino. Brisa cósmica. É exatamente disso que se trata.

* trata-se, possivelmente, do disco menos amado (estou a ser simpático) da vasta obra de Julian Cope, mas eu não alinho nisso...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Raw Power Suite

Este disco tem muito que se lhe diga, embora não vá escrever sobre ele mais do que meia dúzia de linhas. Quem conhece Raw Power (Iggy & The Stooges) tem aqui material de sobra para amar ou detestar. Eu incluo-me no primeiro grupo. É um amor especial (mas não são assim todos os amores?), um amor do qual me orgulho, sem dele fazer alarido. O meu amigo Holy McGrail, já repetente neste blog, apoderou-se do célebre disco de Iggy e companhia, e fez dele uma outra coisa, digamos assim. Esta edição limitada da Brain Donor Records (2008) vale já bom dinheiro (de tão raro que é), para quem tiver ouvidos aptos para uma aventura sónica deste tipo. Prepare-se, se conseguir obter esta pequena rodela de som! Prepare-se para se incomodar, e acomode-se.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Plight & Premonition


Julgo ter percebido a principal razão para ninguém ouvir este disco. Para se ouvir e apreciar Plight & Premonition é preciso algo que hoje é apenas previlégio de poucos: disponibilidade de tempo. Entendamo-nos: todos temos tempo, mas nem todos parecem estar convencidos, que através do seu gasto se pode ganhar muitas outras coisas, tão ou mais preciosas do que essa circunstância que nos consome vorazmente. Ouvir esta obra de David Sylvian e Holger Czukay requer tempo, paciência, e o pressuposto típico de quem colhe algo precioso, não tanto em busca de resultados imediatos, mas antes tentando entender silêncios, luminosidades que uma ou outra nota vão acendendo. Isso, nos tempos que correm, é pedir muito. Eu sei. No entanto, custa muito pouco. Custa apenas, e de facto, 34.52 minutos.
O disco foi gravado no estúdio dos CAN, corriam os anos de 86/87. Curiosamente, uma remixagem deste mesmo disco (feita por Sylvian) pode ser encontrada como Bonus Cd em Camphor, coletânea instrumental saída em 2002. Tenho a sorte de ter as duas edições, e mais sorte ainda de as ouvir sempre de forma deliciada, quando quero perder o meu tempo para ganhar um pouco mais de vida.

* o disco é composto por duas únicas faixas: Plight (the spiralling of winter ghosts) e Premonition (giant empty iron vessel).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Metropolis Symphony

Nunca me rendi à música clássica. Sei pouco sobre os seus maiores autores, sobre as suas grandes obras. Um dia mais tarde lá chegarei, talvez. No entanto, uma ou outra composição, uma ou outra peça vão entrando nos meus ouvidos pouco acostumados a uma linguagem que permanece, grosso modo, estranha aos meus sentidos. Vou também percebendo a vantagem de associar à música clássica imagens que conheço e aprecio desde sempre, como é o caso, por exemplo, dos livros de BD. Refiro-me, concretamente, ao Super Homem, herói quase impossível de não ser nosso no tempo em que éramos mais novos e puros. Agora, numa idade bem mais madura (mas não totalmente, há que frisar), vou ouvindo, insistentemente, Metropolis Symphony, de Michael Daugherty. Nos seus 42:36 minutos de extensão, imagens de som e animação povoam-me a cabeça, e vou sorrindo interiormente, triunfante, por começar a perceber que tudo o que vou ouvindo faz sentido, e que o meu herói de outrora tem um soundscape que lhe fica muito bem.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma aproximação


Subitamente, o espaço, o som, a luz, tudo fica suspenso. A respiração também. Nem mesmo os olhos registam o que vêem. Fecham-se, porque há uma força maior que os impele ao silêncio total. Silêncio cru, silêncio que se arruma nos poros e nos preenche. Redenção!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Holy McGrail


Começo por dizer que Holy McGrail é meu conhecido. Através do site (e dos forums) Head Heritage, de Julian Cope, tomei contacto com este músico e com o seu trabalho. Gosto, gosto muito, embora Smashed Amps and Sunn Guitars não seja disco para se ouvir todos os dias. Em apenas 24 minutos, a única faixa que o compõe (e que lhe dá nome) divide-se em dois momentos (Axe Victim e Machine Head). O que aqui se ouve é som de feedback de guitarra suja e estridente, sem ponta de melodia aparente, baixo e sintetizadores. Uma odisseia auditiva, este Smashed Amps. É exigente, porque quem o ouve fica entregue a um enorme lençol de sons, sons que nos deixam entregues a nós mesmos, sem outra companhia a não ser a música, crua, primitiva, abrasiva até. Ouçam, se puderem, visto que a edição é raríssima. Não aconselhável a menores de ouvido!

* O cd Smashed Amps and Sunn Guitars é uma edição Fuck Off & Di (2004), de apenas 100 exemplares.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Elizabeth Vagina

Tenho o silêncio em muito boa conta. Há mesmo momentos em que não prescindo da dose certa desse vazio, digamos assim. Por isso, tenho ainda em melhor conta o silêncio musicado deste disco. Chama-se Elizabeth Vagina e é o segundo projecto de Queen Elizabeth. Julian Cope e Thighpaulsandra gravaram-no em 1997 e referiram-se ao disco como 5 Neo-Republican Studies of the Great Goddess Rising. É um disco duplo, de tiragem limitadíssima, uma das raridades da minha já extensa colecção. Tenho-o a dobrar: as duas edições que foram feitas de Elizabeth Vagina (a de edição limitada a que me refiro, e também a outra, de 2002, e que ainda se pode adquirir com facilidade, e cuja capa vos deixo aqui ) são bens preciosos, sobretudo para aqueles momentos onde o silêncio é necessário, imperativo, quase sempre durante certos períodos da noite em que toda a casa dorme e em que o vazio ganha uma dimensão física quase insuportável. Nesses momentos, Elizabeth Vagina consegue manifestar o seu máximo propósito: permitir que o ouvinte pertença a um outro espaço, a um outro tempo que não tem nome nem lugar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tarot musical


Todos sabemos: nem sempre a música serve para cantarmos as suas letras ou para dançarmos. Por vezes a música serve para nos "encontrarmos". Há um tipo de música (música difícil, mais exigente, digamos assim) que desde há muito me fascina e que já me fez viver horas de enorme prazer: o reencontro (mesmo que seja connosco mesmos) é sempre algo prazeroso. Daí que valha a pena partilhar...
Walter Wegmuller gravou Tarot em 1972. A Ohr Kosmische Kuriere editou-o no ano seguinte. É um disco duplo, felizmente. Walter Westrupp, Klaus Schulze, Manuel Gottsching e, é claro, Walter Wegmuller são algumas das feras que tocam neste disco. Tarot não é bem um disco, é mais um estado de espírito em forma de música. Krautrock, mais kraut do que rock, if you know what mean! A sua beleza maior reside no facto de nos entrar pelo corpo, no sangue, nos ossos, até aos capilares. E é repousante, minimal, incapacitante, porque não nos permite ter atenção a mais nada enquanto rodam os seus sons. Aliás, quando se ouve música não se deve fazer mais nada, como sabemos. Ouvir música não é uma actividade passiva. Tudo em mim flui quando ouço Tarot. Sei que não devo abusar. É assim com tudo, é assim com Tarot. Aproveitem e experimentem: as cartas estão lançadas...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Araçá Azul

Vem este texto a propósito de uma morte: a de Edith do Prato. Mas não só. Também, e acima de tudo, a propósito do disco em si mesmo, obra prima que prima por se distinguir de tantas outras pelo avesso do que geralmente apreciamos nas grandes manifestações de génio. Mas deixemos o tópico da morte lá mais para o fim destas linhas, porque é tempo de celebrar a estranha vida de Araçá Azul.
Não adianta muito dizer o que é Araçá Azul. Esse estranho objecto sonoro é inclassificável. Há conversa ( e pouco se percebe do que é dito enquanto decorre), há melodias presas por um fio sonoro frágil, há Caetano a bater no seu próprio peito em jeito de ritmo primitivo, há loucura suficiente para Araçá Azul ter ficado na história da MPB como o disco que mais devoluções proporcionou à sua editora, a Philips. Mas também há Cravo e Canela ("ê, morena, quem temperou, / cigana, quem temperou, o cheiro do cravo", de Milton e Ronaldo Bastos). Como há também Gilberto Misterioso, canção ladainha que nos fica na memória pela estranheza do pequeno poema de Caetano e Souzândrade; Tu Me Acostumbraste, magnífica canção que aparece no disco como se a estivéssemos a ouvir através de um velho rádio de pilhas... E ainda Júlia/Moreno, Sugar Cane Fields Forever e Araçá Azul, a faixa que dá título ao trabalho e que fecha o disco da melhor maneira. É uma mini-canção perfeita, um poema perfeito a terminar aquele que é o disco assumidamente mais experimental do mano Caetano.
Desde os meus 13, 14 anos que uma assonância melódica me habita a memória: "sou um mulato nato/ no sentido lato/ mulato/ democrático do litoral". Quem nunca ouviu Araçá Azul não merece perdão. Mesmo que saiba antecipadamente que o disco não é pêra doce: é araçá azul.

Edith Oliveira (Edith do Prato, como era mais conhecida por usar um prato e uma faca como instrumentos) morreu dia 9 deste mês. Mãe de leite de Caetano Veloso, Edith Oliveira participou no disco Araçá Azul, de 1973. No seu site Obra em Progresso, Caetano escreveu sobre Edith do Prato. O texto pode ser lido aqui. Vale bem a pena.

* a designação deste novo tag deriva do título da peça teatral de Nelson Rodrigues (1965) e do filme de Arnaldo Jabor, Toda Nudez Será Castigada (1973), de que gosto particularmente.

** Toda Surdez Será Castigada é também nome de uma canção da Nação Zumbi, bem como nome de blog.

*** Toda a Surdez Será Castigada passa agora a ser também nome de tag neste blog, dedicado a discos menos conhecidos, digamos assim.