sábado, 1 de novembro de 2014

Wayne Shorter no CCB


Antes: saber que vou ouvir e ver (a ordem verbal é a mais correta, mas a inversa também poderia ser absolutamente verdadeira) uma lenda viva da música deste e do século anterior é algo que me deixa nervoso e inquieto. Expectante, sobretudo. Não consigo parar de pensar nesse facto e tento antecipar o primeiro impacto, o primeiro momento, o instante em que na minha cabeça não existirá mais nada a não ser o concerto de Wayne Shorter na principal sala do Centro Cultural de Belém. Até lá sofro e comovo-me, ao mesmo tempo que recordo discos e temas que fizeram de Shorter o monstro do jazz que todos conhecemos. São muitos, mas um há em particular, aquele que me colocou pela primeira vez perante o músico, que até à data apenas conhecia de nome: Native Dancer, disco de 1974. Depois desse álbum (que tem «Ponta de Areia», por exemplo, e que amo até aos dias de hoje) fui desbravando caminho e conhecendo os inevitáveis Juju e Speak No Evil, e ainda The Soothsayer ou Super Nova, apenas para mencionar alguns dos trabalhos gravados em nome próprio. A estes fui adicionando outros, em que a sua participação como músico / compositor foi absolutamente extraordinária e marcante: E.S.P, In A Silent Way, Nefertiti eBitches Brew, (com Miles Davis), I Sing The Body Electric (Weather Report), Free Form(Donald Bird) e 1+1 (com Herbie Hancock). Estes são apenas os que mais me marcaram, e, pelo que se vê na amostra apresentada, como poderei eu estar noutro estado que não o da inquietação? Tenho contado os dias e as horas. Vai ser hoje, e com Wayne Shorter estarão em palco outras feras do jazz. A saber: Danilo Perez (piano), John Patitucci (contrabaixo) e Brian Blade (bateria). Será na companhia destes senhores que vou estar mais logo, daqui a poucas horas, no CCB, e quase tremo ao escrever estas linhas.

Durante: As conversas começam. Os instrumentos trocam entre si os primeiros recados, as primeiras ideias, esboçam os primeiros conceitos. Dir-se-á que assisto a monólogos em franca conversa. Levado por ritmos e melodias improváveis, cedo percebo que estarei longos minutos ocupado a perceber tudo o que vai acontecendo à minha frente. Estou pertíssimo do palco, e tenho a sensação de que me apercebo das súbitas alterações de direção musical antes mesmo destas acontecerem. A música é também uma evidência física, e a proximidade com ela não é um facto que se deva desprezar neste tipo de performance. Há momentos de acalmia e outros de intensa tempestade. Os fraseados de Wayne Shorter começam a ganhar espaço entre o piano, o contrabaixo e a bateria efervescente de Brian Blade (sempre muito intenso nas batidas, embora me pareça, por vezes, que abusa um pouco dos mesmos recursos rítmicos). Tudo vai crescendo, ganhando corpo. Há revoluções que ocorrem em poucos segundos, êxtases que provocam alguns «bravo!» vindos da plateia. Passam 55 minutos como se tivessem apenas passado meia dúzia. O primeiro mar de aplausos invade a sala e estatela-se de encontro à boca do palco. Os músicos sorriem, agradecidos. Segue-se novo tema, curto desta vez, preciso, com uma contenção maior, menos free do que o longo momento anterior. Nova onda de aplausos. A maré de contentamento está alta. O quarteto junta-se, despede-se com a vénia costumeira, e é o fim do concerto, julgo eu.  Afinal, minutos depois, percebo que é mentira. Eles regressam, para grande alívio de todos. Tocam mais um tema curto, certeiro, na mouche. Fogem de novo para os bastidores, e de novo regressam para a última composição da noite. É o que adivinha. Nova onda de delírio percorre a sala, e o fim acontece mesmo alguns momentos depois. Ainda regressam mais uma vez, apenas para nova colheita de aplausos, que nunca cessaram até ao acender das luzes de palco. Wayne Shorter continua grande, mas a idade pesa. São mais de 80 anos de vida. No entanto, se fechar os olhos – e fechei-os inúmeras vezes – está novo e tão inovador como sempre foi. Em muitos momentos do concerto fui vivendo peripécias interiores. Fui para onde a música me levou, e levou-me a lugares incertos e improváveis. Pensei em O Som e a Fúria, de Faulkner, nos instantes de maior exaltação composicional. Pensei no célebre 18.º capítulo do Ulisses, de James Joyce, nos momentos onde os fraseados dos instrumentos eram avassaladores e nada normativos. Pensei ainda noutras coisas que não refiro aqui por pudor e por decência. Os sons comandaram-me a cabeça. Eu apenas obedeci às suas ordens fantasiosas.

Depois: acabou o concerto, e a partir de agora só a memória desse momento existirá. Os ecos do saxofonista soprano irão permanecer comigo durante dias e dias. Vou com a sensação privilegiada de ter assistido a um grande concerto, e com a absoluta certeza da existência de um Olimpo que, de quando em vez, desce à Terra e abre a porta da sua casa e dos seus sons aos ouvidos humildes e humanos. Sei que ganhei muita coisa e que perdi outra tanta. É muita oferta para uma cabeça, dois ouvidos e um só coração. Custa muito a constatação do fim, mas não custa rigorosamente nada sonhar que tudo ainda continua e continuará. Faço-me ao caminho na longa avenida de Belém. Tento assobiar a melodia impossível que trago dentro de mim. Vou sorrindo, e só eu sei porquê, andando ao encontro da felicidade que deixei para trás.

* texto de minha autoria que pode também ser encontrado no site Altamont - Music For The Music Generation

4 comentários:

F.A. disse...

Grande texto.
Com esta malta são sempre momentos de alto gabarito.
Fui espreitar o bilhete, um preço muito em conta.
LOL(ada).

Carlos Lopes disse...

Obrigado. Sim, é verdade: com esta malta não há que ter receios. O preço foi bem catita. Como escrevo para o Altamont tenho acreditação para qualquer concerto. Sorte, mas sai-me do corpo ;-)

F.A. disse...

Obrigado.
Coloquei um link para a sua crónica no meu blog
Era merecido.

Carlos Lopes disse...

Obrigado eu!