sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Íntima luz


E quando chegou a noite, chegou o frio. Talvez por isso lhe tenha apetecido vestir um casaco de lã. Encostou-se à janela do quarto e viu o mundo parado lá fora. Estático, pedaço de fotografia enquadrada no vidro por onde espreitava. Lembrou-se, aos poucos, do que lhe haviam dito minutos antes. E, para melhor se capacitar disso, recordou essa ideia numa voz que condizia com o cair da noite: a escuridão tem sempre de ser exterior a nós!


*esta imagem foi retirada do site http://bocadosdetudo.blogspot.com/

Ai (suspiro, agora para elas)


Assim já parece mais justo, dirão as leitoras! - em relação ao post anterior...

Ai (suspiro)


Uma mulher com uma arma destas era para toda a vida...

Poema

O que nasceu da ausência
fez-se flor
e fez-se forte
insinuosa e pronta
para o desfrute
das pétalas
para os encantos
do cheiro
e dos aromas do amor

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Poema

Mexo no papel
aliso a folha como se beija
a face daqueles que amamos

Cheiro o sabor que tem
e inscrevo nele a minha voz
impura e lívida

O amor tem momentos assim
momentos maiores que a vida

And Now for Something Completely Different...


Porque os meus dias têm sido vividos em horas de alguma melancolia, talvez por isso o disco de Ai Aso me arrepia em todos os seus acordes. Pouco mais de trinta minutos a ouvi-lo e o dia tem outro brilho, outra luz, tímida e frágil, incenso nos ares e nos ouvidos. Como alguém que se preocupa comigo, que se acerca de mim e me diz, num quase manto de silêncio:
- estas canções são a tua salvação!


* Ai Aso é japonesa, canta em japonês e gravou o disco Chamomile Pool. Com um título assim só me resta adormecer e agradecer-lhe a existência nos sonhos que ele me provoca.

Poema do dia que não houve

Era hoje o dia
tão esperado
o dia do desejo
acumulado
que amanheceu
sem luz
frio e carente

Era hoje o dia
em que frente a frente
a vontade do passado
se tornaria presente
num duplo corpo
entrelaçado

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Écoutez le cinéma!


Ontem, ao final da tarde, chegou-me às mãos o cd com as bandas sonoras dos filmes e Pierrot Le Fou e Week-End, compostas por Antoine Duhamel. É um trabalho precioso e mesmo aquilo que precisava para acalmar os dias que correm. Ouvir faixas como Ferdinand, Pierrot ou Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujours (esta última com a voz de Anna Karina), é uma belíssima experiência.
Ouvir o filme sem imagens! Lembrar as imagens que ouvimos! O cinema na cabeça! Je suis fou, bien sur!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Pedro


Pedro: sei que não me conheces, mas que escreves sobre mim. E isso não me incomoda, nem me perturba, tampouco. o que me intriga é saber que me escolheste como personagem dessas histórias verdadeiras que inventaste nas páginas do teu livro e que não me tenhas avisado disso. Apanhaste-me de surpresa, Pedro. E essa surpresa quase me fulminou... Passado o susto, o que me causa alguma estranheza é saber que vou vivendo em algumas palavras que não são minhas, mas que me pertencem por inteiro, como se me conhecesses e escrevesses sobre mim. Mas isso, ambos sabemos, não pode ser verdade, pois não?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Dúvida

O que dirão de nós as palavras preteridas?

Grito


Foi ao entardecer. Tentei silenciar o grito para que ninguém o ouvisse e o estrondo ecoou apenas dentro do que sobrava de mim, destroço humano aos pés da cama. Imaginei que a terra ouviria para sempre aquele gemido surdo e que os pássaros, em companhia do sol que se espreguiçava lentamente, partiriam incomodados para todos os destinos do mundo à procura do sossego desejado.


*esta imagem foi retirada do site httpvidroazulruc.blogspot.com

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Poema

Um sopro de luz
que dure o tempo
de outras vidas!

E é bom viver
sem tempo
e sem limites
sem chegadas
nem partidas

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Fim


As árvores também baixam os braços quando se cansam da vida...


*esta imagem foi retirada do site http://aspartesdotodo.blogspot.com/ e são da autoria de Sofia P. Coelho

Poema

Éramos muitos, sabias?

Tantos que ao fim do dia
nem tempo havia
para os abraços finais

Éramos muitos, sabias?

E fomos caindo
à mercê dos temporais


*este texto foi inspirado a partir do verso Éramos muitos, sabias?, retirado do poema amigos..... que se pode ler aqui, de autoria do redjan.

Spiritualized


Os meus amados Spiritualized estarão de volta aos discos no próximo (mas tão distante...) mês de Maio, dia 19. O disco terá como título Songs in A & E. Anunciam-se 18 faixas, sendo que 6 são interlúdios. Parece que ainda não é desta que poisam em Portugal para apresentarem este novo trabalho, o que me faz pensar seriamente em ter de ir a Londres ( 05-20 London, England - Koko ), ou a Barcelona ( 06-18 Barcelona, Spain - Benicassim Festival ) para os ver e ouvir ao vivo.
A acontecer, seria a primeira vez. E todos nós sabemos que a primeira vez é sempre memorável...

Poema

Aprender a morrer
aprender sem enganos
e sem sabermos
que coisa é essa
tão humana e definida

Aprender a morrer:
e para isso
temos toda a nossa vida

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

(I'm Always Touched by Your) Presence Dear


Pela enésima vez, mais uma compilação da maior banda pop dos anos 70 e 80. Tenho tudo sobre eles e uma enorme vontade completista de ter mais esta edição. Cá por casa há sempre espaço para os Blondie. Em casa e em mim, está claro. E aquele olhar..., ainda hoje me perturba imensamente!


* o título deste post é o nome de uma das primeiras canções da banda

Feridas


Com uma energia incontida, risquei no chão a tua imagem. Feri as mãos ao fazê-lo. Rasguei a pele. Há feridas que transbordam os corpos que se ferem. Sempre soube que era assim. Mas há feridas maiores que se tratam com gestos anteriores à fúria. Com suaves gestos sentidos, imaginados. Feridas que se curam com pingos de sangue das mãos, derramados em forma de coração.


*esta imagem foi retirada do site httpvidroazulruc.blogspot.com

Os corpos


Os corpos são peças
que se equivalem
(mão na mão
boca na boca
peito no peito)
nos seus moldes
imperfeitos
E só quando
se revelam
se encaixam
de outro jeito...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Para sempre


Antes eras assim, trigueira, capaz de piruetas para me fazeres feliz. E ainda és. Os meus olhos é que estão diferentes, pouco aptos às contingências da vida.
Mesmo sem saberes, ainda te sinto como eras, como sempre foste para mim. Uma boneca. Uma boneca com a alma mais doce que existiu. E a minha alma ainda chama por ti, mesmo sabendo que a tua já partiu.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Poema

Parece simples
unir palavras
que me revelem
parece pouco
parece apenas
uma escolha
um momento
que acontece

Talvez pareça
ser só um sonho
que inicio sem saber
e sem saber
desaparece

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Eu e Tori Amos


Hoje passei a manhã com Tori Amos. A manhã toda. No sofá, cantámos mais do que conversámos. Enfim, eu não cantei... Apenas a voz de Tori a encher a sala. Quando cantou Hey Jupiter, tremi um pouco. Cantou-a de novo e fechei os olhos.
Não conto o que pensei. Seria deselegante para com quem foi tão intensa na voz, tão vibrante nas melodias do piano. Deixo apenas uma ideia:

"And this little masochist
Is lifting up her dress
Guess I thought I could never feel
The things I feel
"

E prometeu voltar um dia mais tarde. Quando chegar o dia, aí sim, conversaremos.


* Hey Jupiter está incluida no disco Boys For Pele

Poema

A minha mão
diz o que sinto
e a tua mão
mostra o caminho
que nos rouba ao labirinto

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Vazio recortado


A solidão tem o som de uma cadeira de baloiço que não range. Há muito tempo. Porque houve um dia em que não vieste, porque noutro dia o cheiro das torradas da manhã não se fez sentir, mais tarde era o coração que já não batia, nem nos sentimentos da memória batia o teu coração.
Hoje, só nas palavras te encontro. Nas palavras e no vazio recortado da cadeira de baloiço inexistente.


* esta imagem foi retirada do site http://bocadosdetudo.blogspot.com/

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Poema

Silêncio
apenas um minuto
de sossego absoluto
para que me perca
nos caminhos escolhidos

Ao longe
os sentidos dançam
e estamos tão perto
tão longe e perto
do que nos parece nosso
muito nosso
tão seguro
e tão incerto

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Poemas de amor

Os grandes poemas de amor não se conhecem porque são escritos para dentro.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O meu amigo tigre (de leite)


Hoje voltei a ouvir "Tigermilk", dos Belle and Sebastian. E de novo fui invadido pela ternura daqueles sons tão encantadores. Que disco maravilhoso! Que elegância tão inocente e pura!

Há terapias que não falham...

Noite

Apresento-vos a noite
intensa e nua
de vontades
suspensa nos suspiros
estrelados dos seus olhos
e pronta para ser
(se o acaso se cumprir)
o tempo de todas
as verdades

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Assim não vale...


Joseph-Marie Vien (1716-1809)
A Vendedora de Cupidos, Paris, 1763
Óleo sobre tela, 98 x 122 cm
Musée national du château de Fontainebleau, depósito do Museu do Louvre, inv. n.º 8424 - Foto RMN / © Direitos reservados


Não nos deixemos enganar. Nem hoje, nem nunca!

Ternura

Ternura
nos ombros
onde pomos as mãos
ternura
onde prendemos
o olhar
ternura ainda
nos encontros por marcar
nas águas que correm
nos rios que secam
ternura
nas palavras invisíveis
nas sombras das árvores
no pousar das aves
em qualquer janela
ternura
que acontece
ao cair da noite
quando a noite é dia
ternura que só termina
no tempo em que se inicia

Urgente!



Mas não apenas hoje...


*esta imagem foi retirada do site http://estranhoamor.blogspot.com/

Ah, l'amour...


Hoje, se tivesse tempo, era este o filme que gostava de (re)ver.

Poema

No fundo
são poucas as coisas
que quero
menos ainda
as coisas que venero
de tão simples
pequenas
residuais

Um arrepio na pele
uma página por virar
olhar sem medo
em redenção

O resto é perda de tempo
rumor sombrio
e solidão

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Lembrete (para o dia de amanhã)


Não oferecer
rosas
nem perfumes
nem anéis...

Num beijo
cabe tudo isso
e muito mais

Poema

Que versos são esses
que se derretem
no branco do papel?

De que são feitos
que luz vital
os ilumina?

Parecem versos sonhados
entre menino e menina

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Lembrete


Dia 18 de Fevereiro: acordar cedo e ir comprar o disco mais esperado do ano. Depois fechar-me em casa a ouvi-lo em repeat até alguém me despertar para as obrigações diárias.

ah, e não esquecer os bilhetes para o Coliseu...

Poema

Sou um homem
um miúdo que cresceu
sem pedir esse milagre

Aconteceu
que me entreguei
ao precipício do tempo
e fui ficando
na teia que me prendeu
à condição de ser sempre
o miúdo
que existiu

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Poema

A noite avança
com a rapidez de um cometa
e no fundo frio
da cama
há um corpo
que reclama
a memória
adormecida

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Poema em voz de mulher

...Sem que procure
vou encontrando
o lado escuro
de um sol tamanho...

...e se quiseres
ser luz agora
não percas tempo
que o amor demora...

...mas se o acaso
mostrar-se a jeito
terás abrigo
entre o meu peito...

...e se algum dia
o sol brilhar
verás que a vida
terá lugar...


* versos vagamente inspirados na melodia da canção Pesar do Mundo (José Miguel Wisnik / Paulo Neves), cantada por Caetano Veloso, no disco Onqotô

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Só um poema

Estar só
viver assim
à beira mar
dos desencontros
e olhar nos olhos
dos outros
na esperança de ver
que os nossos existem
mesmo que sós
mesmo sem voz
a repetir
o drama dos dias:
estar só
e habitar
as manhãs frias

Tempo perdido?

Sabes como vencer o tempo se é o tempo que te condena?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Poema

As palavras servem-nos de enfeite
vaidosas que são
quando as dizemos
exalam um perfume doce
de vozes que nunca ouvimos
e assim tornam-se nossas
mesmo antes de as dizermos

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Poema antes de nascer

Fala-me do que não pensas
do que não há
daquilo que é grão no pensamento
para que possa ver no escuro
a prévia luz do nascimento

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Clare Bowditch


Confesso que fui surpreendido. Não estava à espera que uma ruiva entrasse na minha vida assim, sem aviso, e se instalasse em casa numa pose algo sobranceira, do estilo agora vê lá se te consegues livrar de mim! E, na verdade, não tenho conseguido...
Chama-se Clare Bowditch e conta em The Moon Looked On com os The Feeding Set. O disco é de 2007. Não se pense que é genial ou coisa que o valha. Não é. Possivelmente, sem que ela se aperceba, deixarei, mais dia menos dia, a porta entreaberta para que saia da mesma forma que entrou. Mas tem uma voz tão aprazível e canta versos que dizem "If you're outside looking in and you see me inside waving / could you place your fat lips on the window glass? / And I will blow a short hot breath and draw my secrets into it...", e isso deixa-me inquieto. Muito inquieto, percebem?

Poema aceso nas estrelas

Escureceu
apagou-se o último
suspiro das estrelas

Está fria a noite
tão escura a noite

Mas há outras luzes...
e só eu
consigo vê-las

Poema

É por dentro
bem dentro
rente à pele
é no olhar
que resplandece
no sorriso
que amanhece o dia
por fim
timidamente

É no peito
é na ferida e no ardor
é desse jeito
que existes
é tudo isso
ou talvez
nem isso
meu amor

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Estranha forma de existirmos


Pequenas luzes que brilham no escuro. Sinais que se movem ao nosso encontro.
Estamos todos perdidos, não estamos? Parece fatal essa ideia de destino que nos troca as voltas, que nos empurra. Parece que a vida é mesmo isto, sombras de outros em nós. Estamos todos rendidos, não estamos? E circulam ao redor - passageiras sem sentido -, como setas, rápidas, certeiras, as horas que regem os dias. Estamos todos marcados, não estamos? Mas existimos mesmo assim, iluminados por pequenas luzes que brilham no escuro, por sinais que se movem ao nosso encontro.


*imagem de Paula Vanessa Varela

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Fleet Street


Ontem cortei-me todo! Foi tão bom!

Alguma luz


Cinza, negro, alguma luz tingida em tons escuros, alguma esperança, mesmo assim. As pedras, os caminhos sinuosos, os obstáculos, as veias, as artérias por onde circulamos. Nunca o destino esteve tão próximo, acolhedor...
Deitar-me nele e adormecer. Sem certezas, sem rumos, apenas a vontade física de lhe pertencer.


*esta imagem foi retirada do site http://olharmacro.blogspot.com/

Enigma

Um dia
quando menos se esperar
a noite terá a luz do dia
e será noite
em qualquer outro lugar

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Poema

É sobretudo quando falas
quando a voz
pertence aos lábios
às mãos nos cabelos
à valsa das ancas em silêncio
sobretudo quando ris
e a cara se ilumina
de imagens tão distantes
ou quando o peito se aflige
no rasgo da blusa
(como um sorriso de pano!)
a pedir colo
consolo de palavras e amor

É sobretudo quando transformas a vida
em algo muito maior

sábado, 2 de fevereiro de 2008

De mãos dadas


Vinte e cinco anos não são nada. É pouco tempo. Há um tempo maior que não termina nunca.Esse tempo não se vê, mas habita nos sorrisos que permaneceram iguais porque venceram o tempo. Reduziram-no. Eliminaram-no.
E por isso, estivemos sempre de mãos dadas para lhe fazermos frente. Mesmo sem o sabermos...


*para a Teresa, Paula, Vanda, Lena e Rute, intrusa muito bem recebida

Já?


Já adormeceste alguma vez com um sorriso no olhar?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Apagar


Procurava alguém que lhe dissesse o caminho certo, que rumo tomar, como esquecer o passado que a perseguia e lhe tomava o pulso dos dias e das horas. Queria esquecer tudo, anular tudo, apagar tudo, tudo mudar. Mas como fazê-lo? O rasto do que fomos e vamos sendo é sempre visível. Tão visível, tão presente... Por vezes basta olhar para trás. É também lá que estamos até o tempo apagar todos os vestígios. Até nos apagar. E foi isso que aconteceu...


*esta imagem foi retirada do site http://emanuela.blogs.sapo.pt/

Poema às primeiras horas de Fevereiro

Fevereiro é assim:
um canteiro de dias
por regar
até florir
um tempo novo
sem pressa
de se afirmar